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A paz bíblica na perspectiva do Messianismo de Jesus

 A paz bíblica na perspectiva do Messianismo de Jesus

Neste capítulo, vamos examinar a relação que existe entre o tema da paz na Bíblia com o evento Jesus Cristo, ou seja, com a vida, palavras e atos de Jesus de Nazaré (cf. Lc24,19). Para tanto, nos concentraremos nos casos em que o termo grego eirene1  aparece como um elemento da pregação e dos atos de Jesus Cristo. Nossa  intenção  não  é  a  de  fazer  uma  exegese  de  textos  evangélicos,  mas  a  de perceber em tais textos a possível relação direta da paz (eirene) com a Pessoa e a Mensagem de Jesus Cristo. E a partir dessa relação, questionar se a paz bíblica, já percebida como elemento essencial da fé de Israel, recebe ou não um novo sentido. Desse estudo, procuraremos extrair alguns dados teológicos para uma reflexão cristã sobre a paz.

Segundo R.  COSTE,  a  paz  está  no  centro  da  pregação  de  Jesus.2  Em  seu anúncio  evangélico  do  Reino  de  Deus,  a  paz  é  uma  realidade  presente,3   seja explicitamente pelo uso do termo eirene,4  ou de maneira implícita na proclamação de que a esperança messiânica se realiza com a chegada do dom da paz.5  De igual modo, a vida de Jesus está profundamente relacionada com a paz. Seu nascimento é interpretado como o cumprimento da promessa da paz para a humanidade; sua morte na cruz, como o estabelecimento da paz reconciliadora; os encontros com os seus discípulos, após sua Ressurreição, como doação da paz definitiva, a “sua paz”.6

Entretanto, não basta apenas constatar o fato da paz estar presente na pregação e na vida de Jesus. A questão principal é perceber como ela se articula com o seu Messianismo.

A Revelação Bíblica tem em Jesus Cristo a sua plenitude.7  Ele é a expressão  do ser de Deus Pai, o Deus de amor e paz.8. E, como nos diz a própria Escritura, essa plenitude se inicia com o nascimento do Filho de Deus.9  Na encarnação, o Filho  entra  concretamente  na  história  dos  homens,10   de  modo  que,  inserindo efetivamente sua vida na  realidade de seu povo,11   anuncia-lhes o Deus de Amor e de Paz.12

Nessa articulação com a história do povo de Israel, Jesus vem como aquele que cumpre as expectativas messiânicas: Ele é o Messias esperado.13  Segundo R. COSTE, a fé que os discípulos depositam em Jesus nos leva a perceber que, pelo menos para eles, Jesus corresponde à esperança messiânica de seu povo.14  E nesse dinamismo de promessa e expectativa, cumprimento e realização, o tema da paz se faz presente de forma marcante.

É  justamente  essa  presença  da  paz  (eirene)  na  vida  de  Jesus  que  iremos abordar  neste  capítulo.  Para  desenvolver  essa  temática,  optamos  pela  seguinte ordem   metodológica.   Primeiramente,   abordaremos   algumas   passagens   dos “Relatos da Infância de Jesus” no evangelho de Lc, onde o nascimento de Jesus é interpretado dentro de toda a expectativa da paz messiânica. Depois veremos no anúncio  do  Reino  de  Deus,  como  a  paz  está  presente,  seja  em  uma  das  Bem- aventuranças, seja nas instruções e ensinamentos de Jesus sobre esse Reino. Nessa seqüência,  tendo  como  pano  de  fundo  os  dois  pontos  anteriores,  examinaremos algumas passagens em que a paz se insere alguns relatos de milagre e perdão. Por fim, abordaremos a eirene na perspectiva da Morte e Ressurreição de Jesus.

O nascimento de Jesus como realização da paz messiânica

Iniciamos essa nossa abordagem pelos primeiros capítulos do Evangelho segundo Lucas.  Assim optamos por  entender  que  neles  está  condensado  aquilo que é fundamental para os Sinóticos: Jesus é o Messias esperado. Mais ainda, Ele “assume e realiza a obra messiânica de justiça e paz anunciada pelos profetas”.15

No  caso  específico  de  Lc  1-2,16   o  conteúdo  de  suas  narrativas  tem  um sentido  teológico:  elas  exprimem  a  profissão  de  fé  dos  primeiros  cristãos  na humanidade e divindade de Jesus.17  É claro que essa fé parte da Ressurreição. É justamente,  a  partir  dela,  que  a  reflexão  cristã  passa  a  iluminar  toda  a  vida  de Jesus,  de  modo  que  seu  nascimento  é  visto  como  antecipação  da  plenitude  do Ressuscitado.18

Nesse contexto  de  uma  profissão  de  fé,  o  tema  da  paz  se  faz  presente associado ao cumprimento da expectativa  messiânica.  Nessa  perspectiva,  vamos nos basear fundamentalmente nos textos de Lc 1,79; 2,14.29, nos quais veremos o conteúdo teológico da associação do tema da paz com o nascimento de Jesus.

A paz messiânica como caminho de vida.

Em Lc 1,68-79 o salmo profético de Zacarias apresenta uma ação de graças pela salvação  messiânica.  Nesse  salmo  profético está  presente  a  dinâmica  de promessa  e  cumprimento19.  Na realidade,  duas  promessas   são   cumpridas. Primeiramente, cumpre-se  uma  mais  imediata,  ou  seja,  o  nascimento  de  João Batista, anunciado em 1,13-21; a outra, é o início da era messiânica (Lc 1,76ss).

Assim  sendo,  o  evangelho  de  Lucas  insere  as  origens  de  Jesus  na  dinâmica  da realização da Palavra de Deus, no cumprimento de suas promessas.20

A  narrativa  de  Lc  coloca  na  boca  de  Zacarias  os  motivos  da  esperança messiânica e os elementos de sua salvação, temas contidos em anúncios proféticos do AT.21  O ponto fundamental da ação salvífica de Deus é o modo pelo qual Este  realiza  essa  salvação:  Deus  visita  seu  povo.  Esse  tema  está  na  abertura  e  no fechamento dessa perícope (Lc 1,68.78).

Assim, a partir dessa  intervenção  divina,  é  que  devemos  interpretar  a conclusão do salmo de Zacarias, ou seja, como um anúncio da paz divina: “Ele apareceu  aos  que  se  acham nas  trevas  e  na  sombra  da  morte,  a  fim de  guiar  os nossos passos no caminho da paz.” (Lc 1,19).

A relação entre a paz e a ação de Deus, descrita na perícope de Lc 1,68-79, tem toda uma intenção teológica: podemos afirmar que ela revela que essa paz é a paz  definitiva,  pois  é  a  paz  messiânica,  a  paz  salvífica  do  Reino  de  Deus,22   a realização das promessas e a plenitude dos dons divinos.23

É  claro  que,  em  conformidade  com  a  perspectiva  da  paz  no  AT,  aqui também há uma forte carga existencial. Em uma situação de trevas, de sombra e de  morte  abre-se  a  perspectiva  de  um  caminho  salvífico.  Iluminado  pelo  ”astro nascente”,  o  caminho  da  paz  é  um  desafio  para  a  humanidade  construir  novas relações de vida.

A paz messiânica sobre a terra

Dissemos  acima  que  Lc  insere  intencionalmente  as  origens  de  Jesus  na dinâmica vetero-testamentária de promessa e cumprimento. Assim foi na narrativa do nascimento de João Batista. Agora, em Lc 2,1-21 essa dinâmica chega ao seu ponto culminante: o nascimento do Messias.

No relato do nascimento de Jesus estão mesclados fatos da realidade, como  o nascimento de uma criança   e dados da fé, simbolizados no anúncio dos anjos aos pastores24. Essa fé é fundamental para a interpretação do nascimento daquela criança,  pois  no  anúncio  de  seu  nascimento  é  revelado  seu  sentido  último:25   o Filho de Deus veio ao mundo, a salvação messiânica está entre os homens.

A proclamação da “boa notícia” do nascimento de Jesus concentra o fundamental da fé cristã sobre sua identidade e, ao mesmo tempo, é o momento que conclui toda a espera messiânica: “Nasceu-vos hoje, na cidade de Davi, um Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2,11). Portanto, é um momento de plenitude, de  confirmação  da  realização  plena  das  promessas  divinas.  E,  inserida  nesse contexto de plenitude, está a exaltação dos anjos: “Glória a Deus no mais alto dos céus e sobre a terra paz para o seus bem-amados” (Lc 2,14)

A expectativa escatológica se firmava na esperança de que o próprio Deus viria reinar sobre seu povo; de que ele mesmo viesse trazer a paz.26  No canto dos anjos (Lc 2,14), a exaltação do “Glória a Deus” evoca o fato de que a potência salvífica de Deus se revela e se estabelece entre os homens27. Efetivamente isto se faz por meio da paz: “e sobre a terra paz” (Lc 2,14b).

Portanto,  a  paz  anunciada  como  presente  ”sobre  a  terra”,  por  ocasião  do nascimento  de  Jesus,  é  identificada  com  a  própria  ação  divina.  Ela  é  a  paz messiânica (Cf. Is 9,5.6),28  a mesma aclamada por Zacarias em Lc 1,79, mas que, libertando-se da visão nacionalista,  agora é anunciada para toda a humanidade.29

“Ir na paz” messiânica

Antes,  foram  os  anjos  que  cantaram  louvores  a  Deus  pelo  nascimento  de Jesus.  Agora,  em  Lc  2,22-39  esse  louvor  é  posto  na  boca  dos  homens  e  das mulheres, em duas figuras de especial simbolismo: o justo Simeão e a profetisa Ana,   que,   conforme   afirma   R.   FABRIS,   ”recolhem   todas   as   expectativas messiânicas dos profetas e dos pobres de Israel.”30

Simeão representa a figura do homem justo. Trata-se daquele que, de acordo com as concepções do AT, aguardava a consolação de Israel, ou seja, sua salvação definitiva.31  Além dessa expectativa remota, ele ainda tinha uma outra, não morrer sem ter visto o “Cristo do Senhor” (Lc 2,26).

Toda  essa  expectativa  do  justo  Simeão  se  concretiza  no  encontro  com  o Menino Jesus. Ele é o “Cristo Senhor”, aquele que traz a “salvação da Deus”;32 ele é “luz para as nações”;33  ele é a “glória de Israel”.34  Por esse motivo, Simeão, agora, pode ir “em paz” (Lc 2,25-32).

Mas, em que consiste essa paz? Ou o que ela representa? Mais do que uma simples satisfação interior, ou uma sensação de estar satisfeito com algo, essa paz designa a certeza do cumprimento da salvação divina. Ele pode ir em paz, porque agora  a  verdadeira  paz  se  coloca  diante  de  seus  olhos.  Por  isso,  a  ele  pode  ser aplicado com propriedade o dito Lc 10,24, pois ele viu o que “muitos profetas e muitos reis quiseram ver (…) e não viram”.

Enfim, a partir dos dados bíblicos que os relatos da infância de Jesus nos oferecem, podemos concluir que neles a paz está inserida na perspectiva da espera Messiânica. O nascimento de Jesus é o cumprimento das promessas messiânicas, e a paz é um de seus elementos.35  De início podemos afirmar que a relação entre a paz  bíblica  e  a  pessoa  de  Jesus  nos  oferece  as  bases  iniciais  para  uma  reflexão teológica   cristã   sobre   a   paz.   Esta,   como   já   dissemos,   é   um   elemento   do Messianismo  inaugurado  por  Jesus.  Ainda  mais,  ela  se  coloca  no  centro  da afirmação de fé de que o menino que nasce é o Messias esperado: a certeza de que a era da paz Messiânica, que até então era uma promessa, agora é uma realidade.36

A  humanidade  está  diante  de  um  novo  caminho,  anunciado  pelos  anjos  e confirmado pelos profetas. Mas, como todo caminho se faz caminhando, a paz se torna uma realidade efetiva na medida em que a humanidade acolhe o Príncipe da Paz e seu Reino.

Do mesmo modo que o nascimento de Jesus é marcado pela perspectiva da paz bíblica, em sua proclamação do Reino de Deus, o tema da paz se faz presente. Para manifestar a chegada do tempo da realização das promessas, Jesus anuncia a vinda do Reino de Deus.37    Mas seu anúncio carrega em si uma grande novidade: não é apenas um anúncio, mas a realização do Reino:38  ”Hoje, esta escritura se realizou para vós que a ouvis.” (Lc 4,21)39

E Jesus anuncia e realiza o Reino de Deus  por  meio  de  suas  ”palavras”  e “obras” (ou sinais).40  Justamente em suas palavras e obras é que veremos como a paz se relaciona com esse Reino.

A paz na perspectiva do Reino de Deus

Vimos acima como a paz está inserida no conteúdo teológico dos relatos da infância  de  Jesus.  Ela  aparece  como  o  sinal  da  ação  salvífica  de  Deus,  que  faz irromper  na  história  humana  uma  nova  perspectiva:  a  perspectiva  do  Reino.  Se pelo  nascimento  do  Filho  de  Deus  seu  Reino  é  inaugurado,  por  sua  atividade ficará claro em que realmente consiste esse Reino.

Jesus  inicia  seu  ministério  anunciando  o  Reino  (ou  Reinado)  de  Deus.41 Esse  fato  quer  mostrar  a  importância  da  perspectiva  do  Reino  em  toda  a  sua atividade, o que fica claro pela centralidade que esse tema ocupa nos Evangelhos, principalmente nos Sinóticos.42

Assim como nos relatos lucanos da infância de Jesus, o tema da paz se faz presente também em seu ministério público. Nos Evangelhos Sinóticos, de forma especial, este tema está inserido na perspectiva do anúncio do Reino de Deus,43 centro  da  pregação  jesuânica.44  Mas  para  não  nos  estendermos  demasiadamente sobre essa temática tão rica e complexa, como é o caso do Reino de Deus, vamos restringir nossa abordagem a alguns pontos centrais. De início, estudaremos um caso  específico  contido  no  Sermão  da  Montanha,45  a  bem-aventurança  dos  que “promovem  a  paz”;  posteriormente,  veremos  algumas  outras  passagens  em  que essa perspectiva do Reino ilumina o sentido da paz anunciada pelos discípulos (a saudação messiânica), o tipo de paz proposto e vivida por Jesus e a vivência dessa paz no grupo dos discípulos.

A bem-aventurança dos que “promovem a paz”

Na  realidade,  em  Mt  5-7  o  termo  eirene  não  está  presente,  pelo  menos literalmente. No entanto, isso não quer dizer que o tema da paz esteja ausente no Sermão   da   Montanha.   Uma   das   Bem-aventuranças   emprega   o   adjetivo eirenopoiós, um termo composto por eirene e o verbo poiéo:46  ”Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.(Mt 5,9)

No texto acima, a expressão “os que promovem a paz” é uma tradução livre do  adjetivo  eirenopoiós,  encontrado  somente  nesta  passagem  de  Mt.  Segundo alguns  autores,  o  sentido  desse  adjetivo  é  variado.  Assim,  eirenopoiós  pode significar  ”o  pacificador”,  ou  seja,  aquele  que  traz  ou  estabelece  a  paz;47   ou também, “o fazedor da paz”,48  ou ainda, trata-se do “artífice da paz”, cuja obra, em conexão com os ensinamentos dos rabinos, é justamente a de “estabelecer a paz e concórdia entre os homens”.49  Segundo W. FOERSTER, o texto de Mt 5,9 se refere àquele que, por sua conta e inciativa, se coloca em meio a um conflito entre duas pessoas, para levá-las ao entendimento e à paz.50

Um  ponto  em  comum  nos  significados  vistos  acima  é  o  aspecto  ativo  de estabelecer a paz, ou seja, o adjetivo eirenopoiós qualifica uma ação como ativa, e não como uma atitude daquele que suporta a situação passivamente.

Decerto, essa  abordagem  sucinta  não  nos  permite  ver  todo  o  conteúdo teológico que o adjetivo em questão possui. Por isso, citaremos alguns dos dados apresentados  por  J.  DUPONT51    no   estudo   que   faz   dessa   bem-aventurança. Segundo   ele,   para   percebermos   o   verdadeiro   sentido   bíblico   do   adjetivo eirenopoiós, e, justamente, por este ser citado unicamente na passagem de Mt 5,9, devemos compará-lo com outros termos relativos a ele,52  tal como segue.

O verbo  eirenopoieo, usado em Pr 10,10, na versão  dos  LXX  é  traduzido como “alcançar a paz”.53  A expressão eirenen poieo (estabelecer a paz), que em Ef  2,15  e  Cl  1,20  está  relacionada  à  obra  salvífica  de  Jesus  Cristo  em  sua dimensão reconciliadora, seja de Deus para com o homem, seja entre os homens.

Já em Tg 3,18, essa expressão se relaciona à ação daquele que estabelece a paz por  meio  da  justiça;  daquele  que,  portanto,  iluminado  por  uma  ”sabedoria  do alto”, reconcilia os homens entre si.

O sentido  desse  adjetivo  pode  ser  enriquecido  também  com  elementos retirados da literatura rabínica. Assim, J. DUPONT apoia-se em paralelos dessa literatura, na tentativa de esclarecer o sentido de eirenopoiós.54

De acordo com esse ponto de vista, percebemos que o adjetivo eirenopoiós não está isolado na Bíblia, pois há certos termos ou expressões que nos permitem perceber  seu  sentido.  Ou  seja,  além  do  aspecto  positivo,  visto  acima,  de  uma atitude ativa de estabelecer a paz, ele se coloca em conexão com a idéia de justiça do Antigo Testamento, bem como na perspectiva da obra reconciliadora de Jesus Cristo.

De modo resumido, podemos dizer que para J. DUPONT os “artífices da paz”55  são aqueles que ajudam seus semelhantes a viver em paz e reconciliados com  todos,  com  Deus  e  com  os  outros,  estabelecendo  o  bom  relacionamento comunitário  e  a  fraternidade.56   Esse  sentido  tem  uma  profundidade  teológica  e existencial  superior    a  traduções  como ”pacíficos” ou  ”pacificadores”. Teologicamente,  ele  se  coloca  na  perspectiva  da  obra  de  reconciliação  de  Jesus Cristo,   que   nos   reconcilia   com   o   Pai   e   instaura   a   reconciliação   entre   a humanidade. Por outro lado, sua importância existencial se funda no fato de que a paz é vista como algo essencial para a vida social, e não somente para o indivíduo, isoladamente visto.

Contudo,  segundo  J.  DUPONT,  o  sentido  do  adjetivo,  visto  acima,  não esgota todo o conteúdo de eirenopoiós contido no contexto da bem-aventurança de Mt 5,9.57  Para tanto, se faz necessário ver  o  ponto  de  vista  do  evangelho  de Mt.58

Já W. FOERSTER observava a associação entre a importância que tem para a literatura rabínica a obra daquele que promove a paz e o “mandamento do amor” nos Evangelhos.59   Em  Mt,  a  prática  do  amor  ao  próximo  é  algo  de  suma importância,  uma  exigência  fundamental.60   Prova  disso  é  o  modo  como  Mt apresenta  a  resposta  dada  por  Jesus  ao fariseu,  que  o  interroga  sobre  o  ”grande mandamento da Lei” (Mt 22,34-40).

O modo como Mt organiza a resposta dada por Jesus apresenta uma grande diferença com relação aos paralelos de Mc 12,28-34 e Lc 10,25-28. Em Mt, apesar do amor a Deus ser o “grande e o primeiro mandamento”, o segundo - o  amor ao próximo - é, na verdade, semelhante ao primeiro. Este é o ponto fundamental para Mt,  pois  sua  narrativa  quer  dar  o  enfoque  principal  ao  segundo  mandamento:  o amor  ao  próximo  é  ”igualmente  importante”  como  o  amor  a  Deus.61   E,  como conclui a narrativa, de ambos dependem toda a Lei e os Profetas, ou seja, toda a norma de conduta do AT.62

Por isso, podemos concluir que para Mt 5,9 a obra daquele que promove a paz não está separada da exigência do amor ao próximo. Promover a paz entre as pessoas é instaurar um relacionamento baseado na dimensão do amor, não só entre os que estão em dissídio, mas entre todos.

Neste sentido, Jesus é o eirenopoiós por excelência. A paz que Ele estabelece, promovendo a unidade do que estava dividido,63  está fundamentada no seu próprio amor pela humanidade.

Pois bem, conforme a segunda parte da bem-aventurança dos construtores da  paz,   aqueles  que  assim  agem  serão  chamados  de  ”filhos  de  Deus”  (cf.  Mt 5,9b). Em que consiste esta denominação? Segundo J. DUPONT,64  será o próprio Deus que assim vai chamar os que promovem a paz, designando uma realidade nova,  ou  seja,  a  adoção  destes  como  seus  filhos,  numa  relação  de  intimidade, baseada no novo modo de agir que é conforme ao próprio agir de Deus.

Esta  designação  de  uma  nova  identidade  de  filho  de  Deus  remonta  a  uma realidade escatológica, pois se pode traçar um paralelo entre Mt 5,9 e Os 2,1-2: a realidade de uma era de felicidade, onde o povo será chamado de “filho do Deus vivo”.65

Logo, promover a paz é fazer acontecer o Reino escatológico. Onde há paz, esse Reino está presente como uma realidade onde Deus chama os homens de seus filhos. A promessa de uma filiação divina de Mt 5,9b é possível de ser realizada nesta vida, 66  uma vez que ela se manifesta no amor radical, amor que se estende até os “inimigos”. Deste modo é que o filho se assemelha ao Pai e se aproxima de sua   santidade,  pois  seu  amor  nos   alcançou  mesmo  quando  éramos  seus “inimigos”.67

Como  conclui  J.  DUPONT,68   o  liame  entre  a  ação  pela  paz  e  a  filiação divina é o amor, o verdadeiro e pleno amor: agape. Este amor é o modo de ser da “nova criação”, daquele que vive na perspectiva do Reino de Deus.

Mas o Reino de Deus não é uma realidade abstrata. Seu caráter escatológico não  nega  sua  dimensão  histórica.69   O  Reino  dos  ”Céus”  está  presente  já  neste mundo. Não plenamente, mas em germe. A história humana é o lugar de atuação do  Reino  Escatológico.  E  a  nossa  vida  é  vivida  nessa  tensão  entre  presente  e futuro. Isto é claro na pregação de Jesus, quando afirma que “cumpriu-se o tempo, e o Reinado de Deus aproximou-se: convertei-vos e crede no Evangelho.” (Mc 1,15).70

E esse Reino, cuja marca é a filiação divina, exige um ethos próprio, em que a  promoção  da  paz  e  do  amor  fraterno  sejam  vividos  em  atitudes  concretas  no presente da história, especificamente nas relações humanas, o que é muito claro no evangelho de Mt.71  Esse amor fraterno, elemento fundamental da teologia da paz no NT, é vivido de modo radical por Jesus. Por suas palavras e por seus atos, Ele nos testemunha em que consiste efetivamente a relação entre a paz e o amor, o que veremos a seguir.

Pois bem, até aqui, vimos como a vida de Jesus e o seu projeto de vida para a   humanidade   são   marcados   pela   perspectiva   da   paz.   Seu   nascimento   é interpretado   pela   comunidade   cristã   como   o   cumprimento   das   promessas messiânicas de paz, assim como a filiação divina se torna efetiva na vivência da paz  como  amor  radical  e  gratuito.  Certamente,  a  coerência  do  modo  de  viver  o projeto de Jesus é visível por atos concretos marcados pela perspectiva da paz. E o próprio Jesus assim agiu.

Como o “evangelho da paz”,72  toda a vida de Jesus se desenvolve como um anúncio desse fato. Em palavras e atos, Ele revela o Deus da paz, e é nas mesmas palavras e nos mesmos atos que veremos  em que  consiste  a  paz  de  Deus,73  seu dom de amor para a humanidade.

A saudação messiânica do Reino da paz

Em conexão  com  a  proposta  do  Reino,  vista  de  modo  paradigmático  na bem-aventurança  dos  artífices  da  paz,  na  instruções  de  Jesus  dadas  aos  seus discípulos, a paz se faz presente como um ponto fundamental. Ou seja, tanto em Mt 10,12s e em Lc 10,5s ela se coloca como um elemento do anúncio da chegadado  Reino,  bem  como  uma  condição  para  seu  acolhimento.  Nesse  caso,  vale ressaltar alguns traços teológicos presentes nessas narrativas evangélicas.

No  caso  do  texto  de  Mt  10,12s,  estamos  diante  da  segunda  instrução  de Jesus  aos  seus  discípulos,  pois  a  primeira  foi  dada  no  Sermão  da  Montanha. Agora,  a  narrativa  evangélica  nos  apresenta  a  ”Missão  dos  doze”,  inserida  na “Missão da Igreja”.74  Dentro das recomendações dadas, está a seguinte instrução:

“ao entrardes numa casa, saudai-a; se esta casa for digna, desça a vossa paz sobre ela; mas se não for digna, volte a vós a vossa paz.” (Mt 9,12s)

Esta recomendação é conforme ao costume judaico de saudar com o desejo  da paz, um dos usos de shalôm, como vimos nos textos do AT. Contudo, o objeto dessa saudação - a paz - possui em si um significado teológico que a faz ser algo mais que uma simples saudação. Ela não apenas precede a ação dos discípulos de anunciar o Reino, mas também  já se  insere  na  própria  dinâmica  de  anúncio  e acolhida desse Reino.

Dessa forma, a saudação da paz está inserida na missão dos discípulos. Esta, por sua vez, está em continuidade com a atividade messiânica de Jesus,75  pois a eles  também  cabe  proclamar  o  Reino  de  Deus  e  fazer  as  mesmas  obras  que  o Mestre.76  Portanto, em suas palavras e ações manifestam a chegada da salvação messiânica.

Com relação aos que recebem o anúncio da paz do Reino, esta, conforme Mt 10,11.13,  impõe  uma  exigência:  ser  digno.77   Podemos  traçar  um  paralelo  entre esse caso e o de Ap 3,4, que retrata uma situação escatológica, e o de Mt 10,37, onde  a  dignidade  se  relaciona  com  a  pessoa  do  próprio  Jesus.  Assim,  em  Mt 10,13, o “ser digno” significa o posicionamento de abertura daquele que recebe o discípulo, que se abre à mensagem de salvação messiânica.

Desta  maneira,  podemos  concluir  que,  nesse  contexto,  a  paz  (eirene) designa a doação de uma nova realidade existencial que se apresenta. Ela está na perspectiva  do  Reino  que  se  faz  presente  na  ação  taumatúrgica  de  Jesus  e  dos discípulos. Portanto, ela designa a própria salvação messiânica,78  e como dom do Reino,79  estabelece uma relação de liberdade e gratuidade, já que a pessoa pode até  mesmo  não  aceitá-la;  mas  quem  a  recebe  e  a  acolhe,  recebe  e  acolhe  a  paz salvífica.80

Essa mesma perspectiva está presente no texto de Lc 10,5s: como dom,81  ela designa a salvação messiânica82  dada pela boa nova da paz em Jesus Cristo (cf. At 10,36). A paz está na perspectiva do Reino anunciado pelos discípulos (Lc 10,9).

E, pelo modo como Lc redige e organiza os versículos, percebemos que o anúncio e a ação do Reino depende da acolhida da paz: esta será o primeiro elemento a ser proclamado (10,5). Se a paz encontrar resposta por parte de algum “filho da paz” (10,6), ou seja, se for acolhida (10,8), o anúncio do Reino se torna efetivo (10,9).

A eficácia do Reino de Deus e sua paz dependem da abertura humana, do acolhimento,  da  opção  em  participar  do  projeto  de  Deus  que  é  oferecido.83  Na verdade, nessa dinâmica de acolher ou não a paz e seu Reino, está a exigência de um posicionamento da pessoa diante de Jesus: o que recebe o anúncio deve fazer uma opção clara e definitiva. É o que veremos a seguir.

A paz trazida por Jesus

O  seguimento  de  Jesus  exige  a  aceitação  da  ética  radical  do  Reino,  ética baseada na paz e no amor, conforme vimos no Sermão da Montanha. Não só em Mt  10,34-39,  como  também  em  Lc  12,49-53,  estão  expostas  as  ”exigências radicais”   da   missão.84    Na   realidade,   são   situações   concretas   vividas   pela comunidade de Mateus, onde os homens e as mulheres, por causa de sua opção de seguir Jesus, encontram oposição até  mesmo entre seus parentes. E é dentro dessa situação concreta que o discípulo é chamado a uma decisão. A opção em favor de Jesus pode criar uma cisão. E a espada simboliza esta realidade.85

Jesus não  veio  trazer  a  falsa  paz  da  indecisão  e  das  meias  medidas,  da indiferença ou desinteresse.86  Uma paz que isenta a pessoa de uma conversão e de uma decisão radical: estar a favor ou contra a proposta do Reino.87

A  narrativa  de  Lc  12,49-53  apresenta  alguns  elementos  que  mostram  a radicalidade dessa opção. Já em Lc 2,34 Jesus era apontado como um “sinal a ser contestado”. Portanto, a “divisão” que ele agora anuncia (12,51-53) está dentro da perspectiva messiânica. Tanto Mt quanto Lc se apoiam em Mq 7,6, um texto que fala  das  divisões  causadas  pelos  tempos  finais,  os  tempos  messiânicos.88   E juntamente com a divisão, o Messias traz a exigência da decisão.89

Podemos notar, ainda, que Lc 12,51 se coloca como um elo entre a opção de Jesus  diante  de  sua  missão  (12,49s)  e  a  necessária  opção  que  cada  pessoa  deve fazer  diante  da  proposta  de  Jesus  (12,52s). Pois,  diante  dos  sinais  do  Reino escatológico que se aproxima (Lc 12, 54-56), ninguém pode ficar neutro: chegou o tempo da decisão. E a primeira decisão a ser tomada é abandonar a hipocrisia de uma  falsa  paz.  90  Como  afirma  R.  FABRIS,  ”Jesus  não  é  portador  de  uma  paz tranqüila  sem  tensões  e  lacerações.  Ele  põe  fim  à  ilusão  de  um  irenismo  sem valor, que enche a boca dos falsos profetas”. 91

A paz nas relações comunitárias

O modo  de  vida  baseado  numa  ética  da  não-violência  e  da  paz,  exigida daqueles   a   quem   é   anunciada   a   Boa   Nova,   já   deveria   ser   uma   realidade experimentada   pelos   discípulos   de   Jesus.   Nesse   contexto,   é   que   devemos interpretar o texto de Mc 9,50: “Coisa boa é o sal. Mas se o sal perde a força, com que lha restituireis? Tende sal em vós mesmos e vivei em paz uns com os outros.”

Esse versículo  está  dentro  de  um  conjunto  de  instruções  dadas aos discípulos  (9,33-50)  que,  segundo  FABRIS,  pode  ser  dividido  em  ”coleções  de sentenças”,92  uma ligada à outra, formando assim uma seqüência organizada:

9,33-37: À  dúvida  dos  discípulos  sobre  a  ”precedência”  do  grupo,  Jesus responde  com  a  instrução  de  que  o  ”maior”  deve  ser  servidor, consciente                   do  papel   fundamental   do  acolhimento  e  da solidariedade, principalmente para com   os menores, cujo símbolo é a criança.93

9,38-42: De modo geral, nesta parte o ensinamento concentra-se na questão da  tolerância  e  a  necessidade  de  se  evitar  qualquer  sectarismo. Entra também uma palavra sobre o escândalo, entendido como uma atitude  que  se  ponha  como  obstáculo  à  fé,  bem  como  o  cuidado necessário para com os mais fracos na fé.

9,43-50:  Trata  da  queda  pessoal,  onde  se  evidencia,  pelos  três  paradoxos apresentados, a necessidade de se escolher a vida94  (cf. 8,34).

O  versículo  50  apresenta-se  como  uma  conclusão.  Mais  ainda,  como  um resumo teológico de todo o conjunto de instruções, pois nele é retomada a questão do  relacionamento  comunitário,95   tema  da  primeira  instrução.  A  figura  do  sal evoca  a  sensatez  e  a  sabedoria  como  a  base  dos  bons  relacionamentos,96  como também o compromisso que o discípulo de Jesus tem com o testemunho perante todos (Cf. Mt 5,13-16).

Assim sendo, Mc 9,50 reforça a necessidade de se manter a harmonia nas relações  comunitárias.  O  verbo  eireneuo,  que  significa  ”conservar  a  paz”  ou  ”viver em paz”,97  aparece também em outros textos do NT,98  sempre inserido no contexto das boas relações comunitárias.

Mas o fundamental é perceber que tal necessidade tem seu fundamento na própria  realidade  salvífica.  Como  anunciadores  da  boa  nova  da  salvação,  os discípulos de Jesus Cristo devem manifestá-la pela própria vida, criando, já neste mundo,  em  suas  estruturas  sociais,  comunidades  baseadas  na  paz  e  no  amor fraterno.99

Até aqui vimos como o tema da paz nas palavras de Jesus está inserido na dinâmica  do  Reino,  em  sua  perspectiva  de  um  novo  modo  de  ser,  baseado  nas relações  harmoniosas  e  no  convívio  fraterno.  Todavia,  o  tema  da  paz  não  se resume  apenas  a  essa  perspectiva.  Uma  outra  está  muito  presente  nos  textos evangélicos,  especificamente  naqueles  onde  a  vida  humana  se  vê  diminuída  em sua dignidade e a paz designa, então, a vida plena trazida por Jesus Cristo.

A paz nos atos taumatúrgicos de Jesus

Segundo Lc 24,19, o poder de Jesus se revela por suas palavras e também por  seus  atos  (ou  obras).  Estes,  como  sinais,  estão  a  serviço  da  fé,  uma  fé  que conduz à vida (Cf. Jo 20,30s). Logo, podemos afirmar que os atos taumatúrgicos de Jesus revelam a vida plena do Reino de Deus, o que está em sintonia com um dos   sentidos   de   shalôm:   a   integridade   da   vida,   a   plenitude   das   relações restabelecidas. As curas e o perdão dos pecados são sinais da atuação do Reino de Deus. Assim sendo, a pessoa que é curada ou perdoada já participa da vida plena do Reino, e por isso a ela é anunciada a paz.

O conteúdo e o sentido teológico-salvífico da paz na perspectiva acima pode ser deduzida de alguns relatos de cura  e perdão.100  Decerto não abordaremos aqui todos os relatos que envolvem a questão dos milagres. Os casos nos quais vamos nos  basear  devem  ser  vistos  como  paradigmáticos  para  uma  teologia  da  paz  na perspectiva de restabelecimento da vida.

A paz como cura e salvação

O caso que nos serve como ponto de partida para nossa reflexão é relatado em Mc 5,25-34 e Lc 8,43-48: a cura da hemorroíssa. Nesse caso do encontro de uma mulher que sofria de um mal que a impedia de viver em plenitude sua vida, podemos  perceber  que  a  palavra  de  Jesus dirigida  a  ela  está  além de  uma  mera saudação de despedida. A mulher agora pode “ir em paz” pois estando curada está agora  restabelecida  em  sua  condição  de  pessoa  e  filha  de  Deus:  como  pessoa agora  é  uma  mulher  que  pode  voltar  a  uma  vida  normal,  livre  da  segregação  e gozando  de  sua  boa  saúde;  Jesus  a  chama  de  filha,  restabelece  a  mulher  na condição de filha de Deus, pois curada de uma condição de impureza ritual101  que a impedia de participar da vida litúrgica.

O ato de Jesus de despedir a mulher “em paz”102  tem todo um significado teológico: o encontro com Jesus restabelece a pessoa. A salvação é uma cura, e a pessoa  curada  é  a  imagem  do  ser  humano  na  condição  querida  por  Deus:  ser humano vivendo na plenitude, na integridade, no completo bem-estar,   vivendo a shalôm da criação.

Para R. FABRIS, a passagem de Mc 5,34 está dentro de uma “coleção de milagres”   (Mc   4,35-5,43),   que,   segundo   a   perspectiva   cristológica   desse evangelho, tem a intenção de revelar o poder de Jesus:

“É  o  poder  de  Jesus  que,  num  crescendo  contínuo,  se  revela  às  vistas  dos discípulos, primeiro sobre o poder caótico e desencadeado das ondas, depois sobre o adversário, Satanás, que como força  coletiva e furiosa atormenta  a vida de um homem, e, enfim, sobre a doença e a morte.”103

O poder de Jesus é revelado então em sua ação salvadora-libertadora, contra tudo  o  que  se  apresenta  como  contrário  ao  plano  de  Deus.  Neste  sentido  estão também a doença e a morte. Por isso, vale ressaltar que no caso da perícope de Mc 5,22-43 (cura da hemorroíssa e ressurreição da filha de Jairo) há dois verbos que revelam o  tema  central  que  vai  ser  tratado:  ”salvar”  (ou curar)  e  ”viver”.104  No caso da filha de Jairo, isso fica claro quando, diante da iminência da morte de sua filha, ele pede a Jesus que vem impor-lhe as mãos para que ele “seja salva e viva” (Cf. Mc 5,22-23).

No caso da mulher que sofria com a hemorragia, esta buscava a cura (Mc 5,28), não simplesmente para uma doença, mas para sua condição de vida, a qual estava  se  esvaindo.  Por  isso,  podemos  afirmar  que  a  paz  que  tal  mulher  agora pode experimentar, tem um novo sentido: como fruto do encontro com Jesus, ela é agora dom vivificante, salvífico. Pois para a mulher, o que estava em jogo era sua vida que “piorava cada vez mais” (Mc 5,26).

Um dado importante que devemos considerar, é que no encontro Jesus com a  hemorroíssa  a  lógica  das  prescrições  legais  de  pureza  e  impureza  é  invertida. Para compreendermos essa inversão, temos que nos remeter à legislação sobre as impurezas sexuais, especificamente sobre as prescrições de pureza e impureza. De acordo  com  as  instruções  contidas  em  Lv  15,25-31,  a  mulher  atingida  por  uma hemorragia ficaria impura pelo tempo que tal hemorragia durasse, e aquele que a tocasse também ficaria impuro. Segundo essa legislação, a mulher do relato de Mc 5 e Lc 8 estava em estado de impureza e todo aquele que entrasse em contato com ela também o ficaria.

No encontro com Jesus, como dissemos acima, essa lógica é invertida, pois o efeito recai sobre a mulher, prevalecendo não a “impureza”,  mas sim a vida; no toque de suas vestes, toque carregado de todo um sentido de uma fé que ultrapassa o  legalismo,  o  qual  impedia  a  mulher  de  entrar  em  contato  com  os  outros, acontece um ato salvífico carregado de dimensão existencial, pois acontece uma ruptura  entre  um  estado  de  exclusão,  causado  pela  situação  de  impureza,  e  a recuperação  da  própria  vida.  Para  aquela  mulher,  o  encontro  com  Jesus  foi  um momento de volta à dinâmica da plenitude para a qual toda a criação é chamada. Ou seja, toda a criação anseia pela plenitude do ser (Cf. Rm 8, 18ss), pelo pleno desenvolvimento  das  potencialidades  recebidas  como  dom  da  vida.  A  cura- salvação  para  a  mulher  ultrapassa  o  meramente  corpóreo  ou  somático.  Não  é apenas  o  fim  de  uma  doença,  mas  o  reencontro  do  sentido  da  vida  e  a  volta  à dinâmica da shalôm da criação.

Por isso, o ato de Jesus de despedi-la em paz tem um sentido novo, que só pode ser entendido dentro da perspectiva salvífica da ação taumatúrgica de Jesus.

A paz que a mulher experimenta é uma paz salvífica,105  pois revela mais que uma vida curada. A paz revela o poder salvífico de Jesus. Como afirma R. FABRIS, “o poder  extraordinário  de  Jesus,  o  poder  salvífico  que  restaura  o  homem  na  sua dignidade ou o liberta de seu medo.”106

A revelação de que o Reino de Deus está entre nós, de que sua misericórdia nos alcançou em Jesus Cristo, se faz também pela ação taumatúrgica de Jesus. E justamente na perspectiva messiânica é que os milagres alcançam seu verdadeiro sentido,  pois  são  gestos  salvíficos  cujo  fim não  está  no  ato  em si  de  curar  uma doença, mas sim de levar ao conhecimento e adesão à proposta do Reino de Deus.

Nesse caso da cura da mulher estamos no contexto da manifestação de uma fé salvífica. No relato do evangelho de Lc, Jesus fala explicitamente de uma força que dele saiu.107  Para este evangelho, essa força108  é, na realidade, a ação do poder de  Deus.  Conforme  R.  FABRIS:  ”O  ‘poder’,  dynamis,  do  Senhor,  segundo  o vocabulário  lucano,  é  a  manifestação  da  força  divina  que  guia  Jesus  desde  o batismo com a descida do Espírito , que é a força ou o poder por antonomásia.”109

Por esse motivo, podemos fazer uma ligação entre a ação do Espírito que age em Jesus, e que age curando a mulher, com a sua situação de paz. A paz é dom do Espírito, que, nesse caso, se reveste de uma especificidade antropológica, já que curada, a mulher pode voltar ao convívio com os outros.   A paz, fruto do Espírito de Jesus, é pois um dom de vida plena.

A paz como fruto do perdão

O capítulo 7 de Lc desenvolve a temática da misericórdia de Deus que se revela em Jesus. Em seus gestos, ele revela a misericórdia do Pai que, em conexão com  o  que  vimos  nos  relatos  da  infância,  é  a  própria  ação  salvadora  de  Deus agindo de modo efetivo no meio do povo (Cf. Lc 7,16).110

Segundo R. FABRIS, são justamente os pequenos, os pobres e os pecadores que, percebendo essa ação divina, se abrem e acolhem a salvação. Assim, eles são: o núcleo do novo povo que acolheu com generosidade a nova proposta salvífica de Deus,  (…)  O  estilo  e  a  lógica  do  agir  de  Deus  desmancham,  mais  uma  vez,  as classificações   e  os  esquemas  humanos.  (…)  O  episódio  da  pecadora,  acolhida  e perdoada  por  Jesus,  na  casa  e  na  presença  de  um  fariseu  carrancudo  e  bem-comportado, é uma plástica ilustração deste estilo de Deus.111

De posse desses dados, podemos afirmar que em Lc 7,36-50, no relato do perdão da pecadora, o versículo 50 é como que uma conclusão de toda a teologia desenvolvida no capítulo 7. A “mulher pecadora” torna-se um paradigma de todo ser humano que é atingido pelo perdão de Deus. Esse perdão que atinge a mulher, e  não  só  ela,  mas  a  toda  humanidade,  atinge  até  as  raízes  mais  íntimas  do  ser humano, de tal modo que ela pode ir “em paz” (Lc 7,50).

Portanto,   essa   paz,   longe   de   ser   meramente   uma   tranqüilidade   de consciência, é, em última instância, a paz salvífica: a paz concedida pelo Messias salvador. E por seus gestos amorosos, a mulher manifesta a sua fé em Jesus.112  E esta  fé  salvífica113   gera  o  perdão,  conforme  explica  R.  FABRIS,  ”poder-se-ia entender  o  texto  original  de  Lucas  também  neste  sentido:  o  grande  perdão concedido à mulher é fruto e resposta a seu grande amor manifestado para com Jesus.”  E,  como  conclui  este  autor,  ”há  uma  íntima  ligação  entre  o  perdão  dos pecados e o amor generoso.”114

No caso específico da pecadora, o perdão lhe proporciona uma nova vida: no perdão ela encontra a salvação.115  E a paz, na qual ela agora pode ir, significa esse perdão salvífico. Portanto, ela experimenta a paz salvífica.

A paz na perspectiva do Mistério Pascal

Tudo o que vimos até aqui sobre a relação do tema da paz na Bíblia com o Messianismo de Jesus chega ao seu ponto culminante: o Mistério da Paixão- Morte-Ressurreição de Jesus, ponto central da Missão de Jesus.116

Sabemos  ue   toda   a   experiência   dos   discípulos   é   iluminada   pela Ressurreição  de  Jesus.  A fé que  eles  professam  no  Cristo,  bem  como  toda  a reflexão  cristológica  das  primeiras  comunidades  são  possíveis  somente  a  partir dessa  experiência.117   O  mesmo  acontece  com  a  vida  terrena  de  Jesus.  O  seu sentido libertador e salvador só é percebido claramente na luz do Ressuscitado, na certeza de que aquele que estava morto, ressuscitou.118

Pois bem, em todo esse contexto o tema da paz está inserido. Nos pontos seguintes, veremos como ela é apresentada, pelos relatos evangélicos, sendo identificada com a presença salvadora de Jesus, e como o dom do Ressuscitado.

A paz identificada com a presença de Jesus

A estrutura literária dos Evangelhos Sinóticos desenvolve  a  atividade  de Jesus  seguindo  a  geografia  da  Palestina:119  ele  inicia  seu  ministério  na  Galiléia, passa  pela  Samaria  e  conclui  sua  atividade  em  Jerusalém.120  Diferentemente  do evangelho de João, em sua atividade de pregador, Jesus só vai a Jerusalém uma única vez, e nesta única estada na “cidade da paz”, ele se aproxima de sua morte.

Portanto, nos três Sinóticos a entrada de Jesus em Jerusalém tem toda uma intenção teológica bem definida: as profecias se concretizaram, o Messias, o Profeta salvador, o Messias davídico finalmente chega a Jerusalém.121

Como o interesse de nosso estudo é a questão da paz, vamos nos restringir à narrativa de Lc, pois somente nela é que o termo eirene aparece envolvido nesta etapa da vida e da obra de Jesus. Mais precisamente, nos basearemos no texto de Lc 19,37-42.44c.

Como em todos os outros relatos da entrada de Jesus em Jerusalém, também em Lc Ele é aclamado publicamente como o Messias.122  Mas em Lc, mais que nos outros evangelhos, podemos perceber uma presença marcante da temática da paz nesse episódio.

Em  sua  narrativa,  Lc  usa  de  imagens  que  evocam  a  esperança  salvífica messiânica.123  Então, segundo Zc 14,4, o Messias entra em Jerusalém pelo Monte das  Oliveiras,  cumprindo  as  expectativas  messiânicas.  Consoante  a  profecia  do “rei  humilde  que  vem  trazer  a  paz”  de  Zc  9,9ss,124   Ele  entra  montado  num jumento, símbolo de seu messianismo de paz.125

Conforme  Lc  19,  37s,  a  paz  é  aclamada  pela  multidão  dos  discípulos.  A saudação angélica de Lc 2,14 agora é posta na boca dos homens e mulheres que seguem   o   Rei   Messias,   assinalando   o   cumprimento   da   profecia   de   seu nascimento:126  a presença da paz messiânica no seio da humanidade.

Todavia,  diferentemente  dos  discípulos  que  celebram  o  encontro  da  paz trazida  pelo  Messias,  Jerusalém  não  a  encontra.  A  ”Cidade  da  paz”  não  soube encontrar  a  paz  verdadeira,127   pois  não  reconheceu  Jesus  como  o  ”príncipe escatológico da paz”.128

Assim, vemos que a redação de Lucas faz uma releitura da entrada de Jesus em  Jerusalém  explicitando  a  profunda  relação  entre  a  salvação  messiânica  de Jesus  e  a  paz.  Poderíamos  afirmar  que  entre  Jesus  e  a  paz  há  uma  relação  de identidade: a verdadeira paz está na pessoa de Jesus. Esta relação de identidade pode ser vista também em alguns textos do evangelho de João.

Diferentemente dos Sinóticos,  que  relacionam  o  tema  da  paz  com  várias etapas da missão de Jesus, em João, esse tema está relacionado diretamente com o  mistério  da  Paixão  e  Ressurreição.129  Portanto,  há  uma  relação  entre  a  paz  e  o momento crucial da vida de Jesus e dos discípulos: seja no contexto dos discursos de despedida (14,27; 16,33), seja nos encontros com o Ressuscitado (20,19.21).

Assim sendo, em Jo 14,27 e 16,33 podemos perceber essa profunda relação, não só na afirmação de que Jesus concede a “sua paz”, como também na certeza de  que  nela  está  a  paz  verdadeira.  Esses  dois  versículos  estão  num  contexto  de íntima  ligação  entre  Jesus  e  os  seus  discípulos.  Aliás,  os  capítulos  13-17  de  Jo contêm  um  ”ensinamento  privado  de  Jesus  aos  seus  discípulos”,  cujo  tema principal desenvolvido é o amor (ágape).130

O capítulo 14 de Jo apresenta, logo de início, o seu tema de fundo: a firmeza da  fé  e  a  necessidade  de  não  ter  medo:  ”Não  se  perturbe  o  vosso  coração;  vós credes em Deus, crede também em mim.” (Jo 14,1).

A  questão  principal  é  a  situação  dos  discípulos  que,  diante  da  iminente partida de Jesus, se sentem só (Jo 14,2.3). Eles devem permanecer firmes em sua fé. Pois mesmo distante, o Mestre vai permanecer com eles: na experiência e na vivência do amor (14,21); através do Paráclito (14,16.17); na oração (14,13.14) e na sua paz (14,27).131

Portanto, em Jo 14,27, bem como em 16,33, a paz concedida aos discípulos está em conexão com a presença salvífica de Jesus Cristo: ela é um dom que “vem do alto”,132  é a doação da presença constante de Jesus, que encoraja os discípulos a  permanecerem  na  fé.  Sua  despedida  na  realidade  não  é  a  declaração  de  sua ausência: Ele vai, mas continuará presente, com os seus.133  Há uma personificação da paz na relação entre ela e a presença de Jesus.

Em  Jo  16,33,  o  texto  retoma  a  questão  da  necessidade  da  confiança  em Jesus,  pois,  apesar  das  aflições,  a  palavra  final  e  vitoriosa  é  a  do  Pai:  a Ressurreição.  Como  afirma  B.  MAGGIONI,  a  paz  de  Jesus  ”não  consiste  na ausência  da  cruz,  mas  na  certeza  de  sua  vitória:  certeza  radicada  na  vitória  do Cristo: eu venci o mundo”.134

Portanto,  nesse  texto  do  evangelho  de  Jo,  já  se  vislumbra  a  realidade  da vitória da paz na perspectiva de ser ela um dom do Ressuscitado, como podemos ver em Lc 24,36-42 e Jo 20,19.21.26.

A paz como dom do Ressuscitado

Em todos os quatro Evangelhos temos os relatos  das  aparições  do  Jesus Ressuscitado. Sem ignorar a importância que cada relato tem, tanto na dinâmica própria  de  cada  Evangelho,  quanto  para  a  teologia  e  a  fé  cristã,  vamos  nos concentrar  aqui  nos  relatos  de  Lc  24,36-42  e  Jo  20,19-28,  onde  o  tema  da  paz novamente está inserido.

Segundo   R.   FABRIS,   no   texto   de   Lc   24,36-42   temos   ”uma   síntese teológico-querigmática,  ou  seja,  um  resumo  das  reflexões  e  da  pregação  que  a primeira comunidade fez com base nas últimas experiências ou encontro com o Senhor ressuscitado.”135

Os  vv.  36-43  relatam  a  aparição  de  Jesus  aos  onze  que,  pelos  ”sinais”, percebem que não se trata de um espírito, mas é o mesmo Jesus que morreu que agora  lhes  aparece.  Há  uma  identificação  pessoal  entre  este  que  agora  surge  e aquele que havia morrido na cruz: é o mesmo Jesus (v. 39); todavia, não está mais morto, e sim vivo, pois come com os seus (v. 43).136

Ao aparecer aos onze, Jesus os saúda com a paz. É a mesma paz salvífica de antes, a mesma experimentada pelos que foram curados e perdoados, é a mesma paz do Reino. Porém, agora, na boca do Ressuscitado, ela chega à sua plenitude: é a paz da vitória sobre a morte, sobre toda e qualquer potência de violência, agora  é  oferecida  a  todos  os  homens  uma  nova  possibilidade:  sair  do  próprio passado de fatalismo e de medo, que geram violência, escravidão e injustiça. (…) A vitória  de  Jesus  sobre  a  morte  é  um  anúncio  que  cria  uma  situação  nova  de liberdade, enquanto subtrai o homem àquele instinto de morte e de medo da morte  que está na origem da situação de pecado.137

A  paz  se  reveste  da  glória  do  Ressuscitado;  ela  é,  em  verdade,  o  dom  de plenitude da vida. É o que podemos ver em Jo 20,19-23.26.

Em Jo também há uma preocupação em demonstrar que o Ressuscitado é o mesmo que morreu, (19,20); porém, revestido de uma nova condição, pois entra onde estavam os discípulos, mesmo com as portas trancadas (19,19).138

Ao  se  colocar  no  meio  dos  discípulos,  o  Ressuscitado  lhes  concede, novamente,  a  sua  paz  (v.  19).  Ao  dizer  que  Ele  concede  a  sua  paz,  queremos afirmar que a atitude de Jesus vai muito além de  uma  simples  saudação.  A  paz concedida  é  a  sua  paz,  em  conexão  com  o  que  vimos  nos  textos  de  Jo  14,27  e 16,33. Sua paz contrasta fortemente com a situação dos discípulos: estavam com as portas trancadas139  por causa do medo. Como em Jo há outras referências ao medo (7,13; 9,22; 12,42), se faz necessário ver sua relação com o tema da paz. Uma boa síntese encontramos na reflexão feita por B. MAGGIONI:

Este medo sempre é causado pelo mundo (os judeus), que o usa para impedir que a luz  abra  caminho;  um  medo  que  encontra  cumplicidade  no  coração  do  próprio homem,  prisioneiro  da  estima  do  mundo  e  excessivamente  preocupado  consigo mesmo; medo que o torna cego e hesitante. Medo experimentado pela comunidade joanéia,  hostilizada  pela  sinagoga  e  pelo  mundo.  O  discípulo  deve  superar  este medo e abrir-se à fé; só assim torna-se disponível para o dom da paz e da alegria, os dois dons que Jesus tinha prometido aos seus no seu discurso de testamento. A paz de Cristo é o contrário do medo (14,27; 16,33). A paz e a alegria são o dom do Cristo  ressuscitado  (v.  20.21),  mas  são  também  condição  para  reconhecê-lo.  E importa  sobretudo  compreender  que  a  paz  e  a  alegria  são  dados  unicamente  ao homem que superou o apego a si e portanto já não é vassalo do mundo: a paz e a alegria nascem na liberdade, na verdade, no dom de si.140

A  plenitude  da  paz  está,  pois,  no  dom  do  Ressuscitado:  de  posse  da  vida plena, ele a concede aos seus discípulos. E, pelo que vimos acima, sobre a relação entre o medo e a paz, esta, para Jo, tem uma dimensão fortemente existencial: ela representa a superação e a libertação141  de tudo o que, interna ou externamente, impede a pessoa de experimentar uma vida plena.

Por outro lado, a vida em Jo não se resume ao biológico, mas é um conceito teológico: trata-se da vida eterna (cf. 20,31; 1,12-16; 3,16). Por isso a paz como dom do Ressuscitado é a paz conquistada pela vitória de seu amor sobre o pecado, a violência e a morte, pois a paz é uma exigência da dinâmica do amor. Por esse mesmo amor  o  Pai  nos  envia  seu  Filho,  que  na  dinâmica  de  sua  Morte  e Ressurreição nos concede a vida.142

Essa experiência fundamental da fé em Jesus  Cristo  vai  mover  a  vida  das primeiras  comunidades  cristãs.  Observando-as,  saberemos  como  devemos  viver, nos dias de hoje, a proposta do Reino de amor e paz. Isto é, viver a paz em uma perspectiva      crística.  Assim,   no  próximo  capítulo, vamos  buscar  refletir teologicamente sobre os dados obtidos com o estudo feito até aqui.

1  Por razões práticas, usaremos a grafia eirene para transcrever o termo grego para o português.

2  R. COSTE. Théologie de la paix. Paris: Éd. du Cerf, 1997, p. 81.

3  Cf. I. NEUTZLING. Jesus, o profeta da alegria. In: M. F. de AQUINO (org.). Jesus de Nazaré: Profeta da liberdade e da esperança. São Leopoldo: Editora UNISINOS, 1999, p. 160.

4  Cf. Mt 10,12s; Lc 7,49; 10,5s.9.

5  Lc 4,16-21; Cf. Is 61.

6  Cf. os respectivos textos: Lc 1,79; 2,14; Cl 1,20, Ef 2,14-17; Jo 20, 19.21.26; 14,27.

7  R. LATOURELLE. Teologia da Revelação. 3a. ed., São Paulo: Paulinas, 1985, p.41.

8  Cf. Hb 1,3 e Jz 6,24.

9   Hb 1,1s; Lc 2,11-14.

10  O texto de Jo 1,14 usa o termo sarx, que designa justamente o homem em sua “materialidade e debilidade”.  Cf.  J.  MATEOS;  J.  BARRETO.  O  Evangelho  de  São  João:  análise  lingüística  e

comentário exegético. São Paulo: Paulinas, 1989, p. 34. O termo sarx pode indicar também, não

só  a  realidade  da  encarnação,  mas  a  solidariedade  do  Filho  de  Deus  com  o  gênero  humano, principalmente em seu aspecto de   fragilidade. Cf. B. MAGGIONI. O Evangelho de João. In: R. FABRIS; B. MAGGIONI. Os Evangelhos II. São Paulo: Loyola, 1992, p. 284-285.

11  R. COSTE, op. cit. p. 81.

12  Idem, p. 83.

13  Cf. Lc 1,79; 2,14.29.

14  R. COSTE, op. cit. p. 81.

15  L. A. VERDES. La paz en el mensaje biblico. In: M. VIDAL (org.) Conceptos fundamentales

de ética teológica. Madrid: Editorial Trotta, 1992, p. 789.

16  Assim como em Jo 1,14.

17  Cf. C. PERROT. As narrativas da infância de Jesus. 2a. ed., São Paulo: Paulinas, 1987, p. 8.

18  Idem, p. 53. Na p. 54 esse autor afirma que nos cap. 1-2 de Lc estão presentes todos os “títulos e qualidades atribuídos a Jesus: filho de Davi (1,27.32.69; 2,4), salvador (2,11), Cristo Senhor (2,11;

cf.  1,43),  o  Santo,  o  Grande,  a  Luz;  repleto  do  Espírito,  Filho  do  Altíssimo,  Filho  de  Deus

(1,32.35; 2,41-51).

19  Cf. R. FABRIS. O Evangelho de Lucas. In: R. FABRIS; B. MAGGIONI. Os Evangelhos II. 2a

ed., São Paulo: Loyola, 1995, p. 36.

20  R. FABRIS. O Evangelho de Lucas, op. cit. p.36.

21  Como em Ml 3,20; Is 9,ss; 42,6.

22   C.  PERROT,  op.  cit.  p.  74.  V.  HASLER,  eirene.  In:  BALZ,  H.,  SCHNEIDER,  G.  (eds.)

Diccionario Exegetico del Nuevo Testamiento I. Salamanca: Sigueme, 1996, col. 1203.

23  R. FABRIS, O Evangelho de Lucas,  op. cit. p. 36.

24  Respectivamente em Lc 2,7 e 2,8-14. Cf. R. FABRIS, O Evangelho de Lucas,  op. cit. p. 37-38.

25  Idem, p. 38.

26  Cf. R. COSTE, op. cit. p. 78.

27  R. FABRIS, O Evangelho de Lucas,  op. cit. p. 39

28  Idem, ibidem.

29  C. PERROT, op. cit. p. 78.

30  R. FABRIS, O Evangelho de Lucas,  op. cit. p. 41.

31  Idem ibidem. Cf. Is 40,1; 49,13; 51,12; 61,2

32  Lc 2,30, cf. Is 40,5.

33  Lc 2,32a, cf. Is 42,6; 49,6.

34   Lc 2,32b, cf. Is 46,13; 45,25.  A. GEORGE. Leitura do Evangelho segundo Lucas. 3a  ed., São

Paulo: Paulinas, 1982, p. 21.

35   Conforme os anúncios de Is 9,5-6; Zc 9,10.

36  Vale notar que a expectativa de uma era de paz fazia para das esperanças não só do povo judeu, mas  também  de  outros  povos.  Sobre  isso,  ver  W.  KASPER.  Jesus,  el  Cristo.  Sexta  edición. Salamanca: Sigueme, 1986, p. 46s.

37  J. COMBLIN. Théologie de la paix: principes. Paris: Editions Universitaires, 1960, p. 258.

38  Idem, ibidem.

39  Ver também os outros textos onde Lc insiste no “hoje”: 2,11; 3,22; 5,26; 13,32; 19,9; 23,43.

40  J. COMBLIN, op. cit. p. 258.

41  Cf. Mc 1,14,15; Mt 4,12-17; Lc 4,14-15.

42  Cf. Mt 3,2; 4,17.23; 12,28; 13; 25,1; Mc 1,14s; 9,47; Lc 13,18.20; 18, 17.24   e outras. Sobre a relação  entre  a  pregação  de  Jesus  e  o  Reino  de  ver,  entre  outros:  M.  QUESNEL.  Evangelho  e

Reino de Deus. São Paulo: Paulus, 1997. I. NEUTZLING. O Reino de Deus e os pobres. São

Paulo:  Loyola,  1986.  A.  G.  RUBIO.  O  encontro  com  Jesus  Cristo  vivo.  São  Paulo:  Paulinas,

1994,  p.33-48.  L.  GOPPELT.  Teologia  do  Novo  Testamento.  Vol.  I:  Jesus  e  a  comunidade primitiva. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 1976, p. 80-108. J. JEREMIAS. Teologia do Novo  Testamento:  a  pregação  de  Jesus.  4a.  ed.,  São  Paulo:  Paulinas,  1977,  p.  150-168.  R. FABRIS. Jesus de Nazaré: história e interpretação. São Paulo: Loyola, 1988, p.104-118.

43  R. COSTE, op. cit. p. 81.

44  Cf. M. QUESNEL, op. cit. p. 7.

45  Mt 5-7. Cf. R. COSTE, op. cit. p. 91-92, o Sermão da Montanha é um “documento importante”

para a teologia da paz no NT.

46  Que  significa praticar, fazer, por. Cf. J. DUPONT. Lés Béatitudes. Tome III: Les Évangélistes. Paris: Gabalda et Cie, 1973, p. 634.

47  V. HASLER, op. cit. col. 1209.

48   H.  BECK;  C.  BROWN.   Paz.  In:  C.  BROWN.  O  Novo  Dicionário  de  Teologia  do  Novo

Testamento. Vol. III. 3ª  ed., São Paulo: Vida Nova, 1985, p. 1597.

49  W. FOERSTER, G. VON RAD, eirene. In: G. KITTEL; G. FRIEDRICH. Grande Lessico del

Nuovo Testamento. Vol. III. Brescia: Paideia, 1967, cols. 241-243.

50  Idem, ibidem.

51  Cf. J. DUPONT, op. cit. p. 633-664.

52  Idem, p.634-635.

53  Cf. a TEB, em nota a Pr 10,10. J. DUPONT traduz como “… fait la paix“, op. cit. p. 634.

54  J. DUPONT, op. cit. p.640-643.

55  A expressão “artífices da paz” é a tradução utilizada por J. DUPONT, op.  cit.  p. 640,  a qual utilizaremos em nosso trabalho.

56  Para esse resumo nos apoiamos também em: VV. AA. A mensagem das Bem-aventuranças.

2a.  ed.,  São  Paulo:  Paulinas,  1986,  p.  72.  Este  livro  é,  na  verdade,  a  edição  das  anotações  de conferências  feitas  por  J.  Dupont  em  um  retiro.  Vale  observar  que  o  adjetivo  eirenopoiós  é traduzido por “promotor da paz”, ou “o que promove a paz”

57  J. DUPONT. op. cit. p. 643.

58  Cf. idem, p. 644.

59  Sobre isso ver: W. FOERSTER, op. cit. col. 215s.

60  J. DUPONT, op. cit. p. 644.

61  Idem, p. 648.

62  Cf. VV. AA. A mensagem das bem-aventuranças, op. cit. p. 74

63  Cf. Ef 2,14; Cl 1,20.

64  Op. cit. p. 654-655.

65  Cf. J. DUPONT, op. cit. p. 656-660.

66  É o que podemos ver um Mt 5,44-45: “Eu porém vos digo: Amai vossos inimigos e orais pelos que vos perseguem. A fim de serdes verdadeiramente filhos do vosso Pai que está nos céus, pois

ele faz nascer o sol sobre os maus e os bons e cair a chuva sobre os justos e os injustos.”

67   Cf. Rm 5,1-11, principalmente o v. 10.

68  Op. cit. p. 664.

69  Sobre isso ver: I. NEUTZLING. O Reino de Deus e os pobres, op. cit. p. 50-52.

70  Cf. idem, p. 51,   Mc 1,15 pode ser interpretado como um anúncio da presença do Reino: “Mc

1,15 não somente anuncia o Reino a vir, mas qualifica escatologicamente, já agora, o presente. E

com isso Mc 1,15 adquire uma realidade escatológica imediata e permite a articulação do Reino de Deus como presente e futuro.”.

71  Obviamente a ética crista se fundamenta em todo o NT, não se restringindo ao Evangelho de Mt. Apenas optamos pelo primeiro evangelho pela questão da importância do Sermão da Montanha. Para uma visão geral sobre a ética néo-testamentária ver: R. SCHNACKENBURG. El mensaje moral  del  Nuevo  Testamento.  Vol.  I:  De  Jesús  a  la  Iglesia  primitiva,  Vol.  II:  Los  primeiros

predicadores cristianos.  Barcelona: Herder, 1989, 1991.

72  Cf. At 10,36; Ef 6,15.

73  Cf. J. COMBLIN, op. cit. p. 258.

74   Mt  9,35-11,1).  Cf.  G.  BARBAGLIO.  O  Evangelho  de  Mateus.  In:  G.  BARBAGLIO;  R. FABRIS; B. MAGGIONI. Os Evangelhos I. São Paulo: Loyola, 1991, p. 173.

75  G. BARBAGLIO. O Evangelho de Mateus, op. cit. p. 177. D. J. HARRINGTON. Mateus. In: D. BERGANT, J. R. KARRIS. Comentário Bíblico. Vol. III: Evangelhos, Cartas, Apocalipse. 2a  ed.,

São Paulo: Loyola, 1999, p. 23. J. SCHMID, op. cit. p. 258.

76  Mt 10,1.5-8, conforme 9,35.

77   Sobre  isso  ver:  P.  TRUMMER.  axios.  In:  H.  BALZ;  G.  SCHNEIDER  (org.)  Diccionario

Exegetico del Nuevo Testamiento I. Salamanca: Sigueme, 1996, col. 337-338..

78  W. TRILLING. O Evangelho de Mateus. Parte I. Petrópolis: Vozes, 1968, p. 238.

79  Cf. J. PIKAZA. Teologia de Mateus. 2a. ed., São Paulo: Paulinas, 1984, p. 63.

80  Cf. G. BARGAGLIO. O Evangelho de Mateus, op. cit. p. 179.

81  A. ESTÖGER. O Evangelho segundo Lucas. Primeira parte. 2a  ed., Petrópolis: Vozes, 1984,

p. 298. J. KODELL. Lucas. In: Comentário Bíblico. Vol III, op. cit. p.89.

82  R. FABRIS. O Evangelho de Lucas, op. cit. p. 121.

83  Idem, ibidem.

84  Cf. G. BARBAGLIO. O Evangelho de Mateus, op. cit. p. 184.

85  Cf. W. TRILLING, op. cit. p. 249.

86  Cf. G. BARBAGLIO. O Evangelho de Mateus, op. cit. p. 185.

87  Ou, como no texto de Ap 3,16, “frio ou quente”, mas nunca “morno”.

88  A. STÖGER, op. cit. p. 375.

89  Idem, p. 374.

90  J. KODELL, op. cit. p. 93

91  Cf. Jr 6,14; 8,11; Mq 3,5.11. R. FABRIS. O Evangelho de Lucas, op. cit. p. 145.

92  Mc 9,33-37; 9,38-42; 9, 43-50. R. FABRIS, O Evangelho de Marcos. In: G. BARBAGLIO; R. FABRIS; B MAGGIONI. Os Evangelhos II. São Paulo: Loyola, 1990, p. 526.

93  Idem, p. 527.

94  Idem, p. 528.

95   Idem,  ibidem.   J.  DELORME.  Leitura  do  Evangelho  segundo  Marcos.  4a.  ed.,  São  Paulo: Paulus, 1982, p. 104. P. van LINDEN. Marcos. In: D. BERGANT; R. J. KARRIS. Comentário Bíblico, op. cit. p. 61.

96  R. FABRIS. O Evangelho de Marcos, op. cit. p. 528. Como podemos ver em Cl 4,5s: “Atinai a

maneira  certa  de  tratar  os  não-cristãos;  valei-vos  da  ocasião.  Sejam  as  vossa  palavras  sempre afáveis, temperadas de sal, com a arte de responder a cada um como convém.”

97  V. HASLER, op. cit. col. 1200.

98  Como em Rm 12,18; 2Cor 13,11; 1Ts 5,13.

99  Cf. V. HASLER, op. cit. col. 1202. J. DELORME, op. cit. p. 104.

100  No caso de cura: Mc 5,25-34 e Lc 8,43-48; de perdão: Lc 7,36-49.

101  Cf. as prescrições de Lv 15,25.

102  ”Ele, porém, lhe disse: ‘Minha filha, a tua fé te salvou; vai em paz e fica curada de teu mal”

(Mc 5,34); “Minha filha, a tua fé te salvou. Vai em paz” (Lc 8,48).

103  R. FABRIS. O  Evangelho de Marcos, op. cit. p. 469.

104  Idem, p. 475.

105  J. DELORME, op. cit. p. 57. P. van LINDEN, op. cit. p. 65.

106  R. FABRIS. O Evangelho de Marcos, op. cit. p. 481.

107  ”Mas Jesus disse: ‘Alguém tocou em mim; eu senti uma força sair de mim” (Lc 8,46)

108  Que aparece também nos relatos de 5,17 e 6,19.

109  Cf. 4,14.36; 6,19; At 10,38. R. FABRIS. O Evangelhos de Lucas, op. cit. p. 66.

110  R. FABRIS. O Evangelhos de Lucas, op. cit. p. 81.

   111  Idem, ibidem.

112  J. KODEL, op. cit. p. 85.

113  Cf. A. STÖGER, op. cit. p. 227.

114  R. FABRIS. O Evangelhos de Lucas, op. cit. p. 88.

   115  A. STÖGER, op. cit. p. 228.

116  R. COSTE, op. cit. p. 83

117  Cf. A. G. RUBIO. O encontro com Jesus Cristo vivo, op. cit. p. 17s.

118  Idem, ibidem.

119  Sobre a geografia da Palestina, ver: B. MARCONCINI. Os Evangelhos sinóticos: formação, redação, teologia. São Paulo: Paulinas, 2001, p. 38-39.

120  Cada evangelho, em sua perspectiva, desenvolve mais a atividade de Jesus em uma ou outra localidade, sobre isso ver: B. MARCONCINI, op. cit. p. 73-75.

121  Cf. Mt 21,1-11.15-17; Mc 11,1-10; Lc 19,29-45.   D. J. HARRINGTON, op. cit. p. 35. P. van

LINDEN, op. cit. p. 64. J. KODELL, op. cit. p. 101.

122  J. KODELL, op. cit. p. 101.

123  R. FABRIS, O Evangelho de Lucas, op. cit. p. 192

124  Cf. G. von RAD, op. cit. col. 205.

125  Cf.  A.  STÖGER.  O  Evangelho  segundo  Lucas.  Segunda  parte.  2a.  ed.,  Petrópolis:  Vozes,

1985,  p.  150.  J.  KODELL,  op.  cit.  p.  101,  o  jumento  esta  em  contraposição  ao  cavalo,  animal usado nas guerras.

126  J. KODELL, op. cit. p. 101.

127  Idem, ibidem.

128  A. STÖGER, O Evangelho segundo Lucas. Segunda parte, op. cit. p. 155.

129  J. COMBLIN, op. cit. p. 202.  R. COSTE, op. cit. p. 89.

130  B. MAGGIONI. O Evangelho de João. In: R. FABRIS; B. MAGGIONI. Os Evangelhos II. 2a. ed., São Paulo: Loyola, 1992, p. 408.

131  Cf. B. MAGGIONI, O Evangelho de João, op. cit. p. 421.

132  Idem, p. 427.

133  Cf. J. MATEOS; J. BARRETO.  O Evangelho de São João. São Paulo: Paulinas, 1989, p. 619.

134  B. MAGGIONI, O Evangelho de João, op. cit. p. 427.

135  R. FABRIS. O Evangelho de Lucas, op. cit. p. 245.

   136  Idem, p. 245-246.

137  Idem, p. 246.

138  B. MAGGIONI, O Evangelho de João, op. cit. p. 484.

139  Segundo J. MATEOS; J. BARRETO, op. cit. p. 828, o texto grego usa o verbo kleiô, o que indica que a porta estava bem fechada, ou seja, com chave, trave, ferrolho ou tranca.

140  B. MAGGIONI, O Evangelho de João, p. 484.

141  Cf. J. MATEOS; J. BARRETO, op. cit. p. 829.

142  R. COSTE, op. cit. p. 83.

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