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A Promessa de Uma Velhice Feliz e Frutífera - Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco

 A PROMESSA DE UMA VELHICE FELIZ E FRUTÍFERA

Deus promete ao justo uma velhice feliz e frutífera para a glória do Seu nome.

INTRODUÇÃO

- Na seqüência do estudo das promessas de Deus, veremos hoje uma promessa que, assim como a do lar feliz, está voltada para a “vida debaixo do sol”: a promessa de uma velhice feliz e frutífera para o justo.

- O justo que atinge a terceira idade tem a oportunidade de, com sua experiência, desfrutar da alegria de sua fidelidade ao Senhor e, mediante seu exemplo, fazer com que ainda frutos desta justiça sejam produzidos para a glória de Deus.

I - O QUE É A TERCEIRA IDADE

 

Colaboração/Gráfico: Enomir Santos

- Muito conhecida é a história mitológica grega, segundo a qual, o herói Édipo teve de enfrentar a temível Esfinge, ser monstruoso que apresentava um enigma que ninguém conseguia decifrar. Todo aquele que não decifrava o enigma era devorado por aquele monstro. Édipo apresentou-se ao monstro e recebeu o enigma, a saber: “qual é o animal que, de manhã, anda com quatro patas; à tarde, com duas e, à noite, com três”. Édipo decifrou o enigma, respondendo que é o homem, pois, no início da vida, anda engatinhando (com quatro patas, portanto), à tarde, anda com dois pés (desde quando aprende a ar até a maturidade) e, no ocaso da vida, normalmente, precisa de uma bengala para ampará-lo, andando, assim, com três patas (os dois pés e a bengala). Nesta lenda grega, temos a idéia de “terceira idade”, ou seja, a terceira fase da vida do homem, também chamada de “velhice”.

- Os especialistas da atualidade consideram que a terceira idade se inicia aos 60 anos de idade, razão pela qual, por exemplo, têm os governos de todo o mundo procurado estabelecer esta como a idade mínima para a aposentadoria (como, recentemente, no Brasil se estabeleceu e se tenta estabelecer na Itália), por se entender que é a partir desta idade que as pessoas sentem as limitações próprias do envelhecimento. No Brasil, aliás, esta idéia se tornou, recentemente, oficial, com a publicação do chamado Estatuto do Idoso (lei 10.741/2003), que, em seu artigo 1º, considera idosa a pessoa que tenha 60 anos de idade ou mais. Este entendimento, aliás, encontra respaldo bíblico, pois as Escrituras, como se vê no Salmo 90, salmo atribuído a Moisés, entendia-se que o limite da vida humana seria de 70 anos (Sl.90:10), sendo que o ultrapassasse disso seria apenas “canseira e enfado”, ou seja, para se utilizar aqui de uma expressão que era, comumente, dita pelo nosso saudoso avô paterno, “hora extra dada pela misericórdia divina”.

- A terceira idade, portanto, é um dos períodos da vida humana, período este, como os demais (infância/juventude e maturidade), dotado de características próprias e particulares, que não se confundem com as demais fases da vida e que, portanto, não é nem melhor, nem pior que as demais, devendo, assim, ser considerada como um novo período, que terá de ser compreendido e assimilado não só pelo idoso, mas, também, por todos que o cercam, a começar dos dois principais grupos sociais a que fazemos parte como servos de Deus: a família e a igreja.

- A  primeira coisa que devemos discernir, ao falarmos da terceira idade, é que atingir esta fase da vida é uma bênção divina. Quem chega à terceira idade, atinge este patamar da vida humana por graça e misericórdia de Deus. A vida é um dom de Deus (I Sm.2:6), assim como o é a sua manutenção. A longevidade, ou seja, a vida longa, é uma bênção que Deus dá ao homem, uma recompensa por sua fidelidade e obediência aos princípios da Palavra de Deus, em especial os atinentes a uma vida familiar de acordo com as Escrituras Sagradas.

OBS: “…Atingir idade avançada com freqüência é considerado na Bíblia como uma bênção divina, uma recompensa pela piedade (ver Jó 5:36; Gn.15:15; Ef.6:3). Isso está ligado a vários atos que prometem especificamente que quem os fizer atingirá avançada idade, como ser obediente aos pais ou devolver ao ninho o passarinho pequeno caído do mesmo….”(R. N. CHAMPLIN. Idade.In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.3, p.199).

             Entre os muçulmanos, aliás, mesmo a falta de memória própria da velhice é considerada uma bênção, como se vê no Corão: “…Deus é Quem vos cria, depois vos recolhe. Entre vós há quem chegará à senilidade, até ao ponto em que de nada se lembrará do que tenha sabido….”(16:70a).

- Poderão, entretanto, muitos objetarem o que estamos a falar, dizendo que, muitas vezes, os ímpios também têm vida longa, apesar de toda a sua impiedade, de modo que, nem sempre, a longevidade, o fato de alguém atingir a terceira idade, é resultado da bênção divina. Em primeiro lugar, devemos observar que a longevidade é uma promessa relativa ao comportamento no relacionamento pai e filho, que não está vinculada a uma relação de comunhão com o Senhor. Em segundo lugar, a longevidade é uma demonstração da misericórdia de Deus, pois, aos ímpios, apesar de seus pecados, está-se prolongando a vida para dar, ainda, oportunidade de salvação a esta pessoa, não deixando, pois, de ser bênção.

- Assim, nunca podemos considerar que a velhice seja um estorvo ou um fardo a se enfrentar, mas, muito pelo contrário, é uma bênção que dada a Deus aos idosos e, como tal, devemos ver, nos idosos, antes de mais nada, alguém que alcançou a graça divina e que, pela sua idade avançada, é uma pessoa ricamente abençoada pelo Senhor. Ao enxergamos no idoso, sobretudo, um ser abençoado por Deus, certamente, teremos uma visão do idoso bem diversa daquela que o mundo costuma oferecer a esta faixa etária.

- Neste sentido, aliás, andou bem o Estatuto do Idoso (lei 10.741/2003), ao considerar que “… o envelhecimento é um direito personalíssimo e a sua proteção um direito social” (art.8º), pois se tem, pelo Estado, o reconhecimento de que uma bênção divina deve ser, entre os homens, considerada um direito e ser, assim, tratado pelos órgãos incumbidos de zelar pela direção e governo da sociedade.

- A segunda coisa que devemos observar na terceira idade é que ela é a fase da vida em que predomina a experiência. Indubitavelmente, os idosos são pessoas que têm, em relação aos demais seres humanos, muito mais experiência, pois o acúmulo dos anos vividos faz com que, inevitavelmente, os idosos já tenham passado por, praticamente, todas as situações e problemas que se apresentam na existência humana sobre a face da terra. A experiência acumulada dos anos é um dos degraus do aperfeiçoamento humano, tanto no aspecto material, como no aspecto espiritual. O apóstolo Paulo ensina-nos que é a experiência é fruto de um processo de aprendizado, que começa com a tribulação, passa pela paciência e desemboca na experiência que, por sua vez, dá origem à esperança(Rm.5:3-5), que é uma das chamadas “virtudes teologais”, que, como bem define o Catecismo da Igreja Romana, são  virtudes que “adaptam as faculdades do homem à participação da natureza divina”, que fundam, animam e caracterizam o caráter cristão(CIC -1812 e 1813). Os idosos, portanto, por serem experientes, constituem-se numa fonte de esperança para aqueles que estão à sua volta.

OBS: “…Sempre foi uma noção popular difundida entre os povos do Oriente que a sabedoria amadurecia com a idade e que os principais repositórios dela eram os velhos. Ouve, meu filho, a instrução de teu pai, e não esqueças os ensinamentos de tua mãe, pois que serão como que uma coroa de graças em tua cabeça, e correntes de ouro em teu pescoço.(Provérbios 1:8,9)….” (Nathan AUSUBEL. Relações familiares, esquemas tradicionais de.In: A Judaica, v.6, p.712)

- O terceiro ponto que devemos verificar, ao contemplarmos a terceira idade, é efeito desta esperança trazida pelos idosos. Segundo o texto sagrado mencionado no tópico anterior, a “esperança não traz confusão”. Um dos papéis mais importantes da terceira idade é o de promover o conselho, a orientação. Por terem experiência, os idosos trazem esperança aos mais jovens e seus conselhos são importantíssimos para dissipar a incerteza, a confusão e a ansiedade que é própria daqueles que, por serem mais jovens, não têm, ainda, esta vivência, própria dos de mais idade. Provérbio português, muito provavelmente de origem árabe, diz: ” Se o jovem soubesse e o velho pudesse, não haveria no mundo o que não se fizesse”. A Bíblia fala-nos da excelência de vivermos junto a conselheiros (Pv.11:14) e não há melhores conselheiros do que os mais idosos. As Escrituras registram o caso do rei Roboão, que perdeu quase todo o seu reino, porque não quis dar ouvido aos conselhos dos mais velhos de sua corte (I Rs.12:1-15).

- O quarto ponto que devemos observar, ao analisarmos a terceira idade, diz respeito a que esta fase da vida é uma demonstração de honra para o ser humano. Se o caráter do homem fiel a Deus é tratado como o de uma criança, ou seja, devemos ter uma inocência como de uma criança, não é menos verdadeiro que as Escrituras consideram que o idoso é uma figura da honradez e da fidelidade, tanto que Deus, mais de uma oportunidade, Se apresentou na Bíblia Sagrada como um “ancião de dias” (cfe. Dn.7:9), a provar que Deus Se identifica com os mais idosos, pois a idade avançada é uma demonstração de honra. Por isso, na lei de Moisés, já se determinava a honra aos idosos (Lv.19:32).

OBS: É importante aqui considerar que Deus não é um velho, como alguns chegam a imaginar, ao ler passagens como esta mencionada em Daniel. Deus é Espírito (Jo.4:24) e, portanto, não é velho nem novo. Se, às vezes, é visto como um “ancião” em passagens bíblicas, é apenas uma forma de manifestação para que entendamos que Deus tem a honra e deve merecer o nosso respeito e consideração, assim como os mais velhos em nossa sociedade.

- A associação da velhice à honra também é encontrada nas passagens bíblicas que indicam que as “cãs”, ou seja, os cabelos brancos, presentes, normalmente, em virtude da idade avançada, são uma prova de honradez e de respeito que as pessoas devam merecer (Pv.20:29). Aliás, os cabelos brancos, diz o texto sagrado, revela a própria beleza dos velhos, ou seja, é um sinal de sua experiência e de sua consideração, motivo pelo qual não conseguimos entender porque muitos crentes insistem em escondê-las…

OBS: “…12. « Levanta-te perante uma cabeça branca e honra a pessoa do ancião » (Lv 19, 32). Honrar os anciãos exige a seu respeito um triplo dever: o acolhimento, a assistência, a valorização das suas qualidades. Em muitos ambientes isto acontece quase espontaneamente, como por antigo costume. Em outros, porém, especialmente nas nações mais desenvolvidas economicamente, impõe-se uma necessária inversão de tendência, para que os que avançam pelos anos possam envelhecer com dignidade, sem temor de ficarem reduzidos a não contar para mais nada. É preciso convencer-se de que é próprio de uma civilização plenamente humana respeitar e amar os anciãos, para que estes se sintam, apesar da diminuição das forças, parte viva da sociedade. Já dizia Cícero que « o peso da idade é mais leve para quem se sente respeitado e amado pelos jovens ».O espírito humano, por outro lado, mesmo ressentindo-se do envelhecimento do corpo, permanece de certa forma sempre jovem, se viver orientado para o eterno; e experimenta mais vivamente esta perene juventude, quando, ao testemunho interior da boa consciência, se une o afecto diligente e grato dos entes queridos. Então o homem, como escreve S. Gregório de Nazianzo, « não envelhecerá no espírito: aceitará a dissolução como o momento estabelecido para a necessária liberdade. Suavemente emigrará para o além onde ninguém é imaturo ou velho, mas todos são perfeitos na idade espiritual »….” (JOÃO PAULO II. Carta aos anciãos. http://www.capeladelourdes.org.br/magisterio/carta_aos_anciaos.htm   Acesso em 10 abr.2004).

II - AS LIMITAÇÕES DA TERCEIRA IDADE

 

Colaboração/Gráfico: Jair César

- Quando falamos em terceira idade, imediatamente nos vem à mente a idéia de limitação, de fraqueza e de dependência, porquanto, nesta terceira fase da existência, como nos indicou a lenda grega mencionada no início deste estudo, é inevitável associarmos à idade avançada as muitas limitações que vêm ao homem a partir do momento em que o envelhecimento vai se efetivando.

OBS: Esta idéia está bem patente no seguinte verso do Corão, que transcrevemos: “…Deus é Quem vos criou da debilidade; depois da debilidade vos vigorou, depois do vigor vos reduziu (novamente) à debilidade, e à velhice.(30:54)…”.

- O envelhecimento, sabemos todos, é conseqüência da degeneração crescente e progressiva de nosso organismo, que já não se recompõe com o mesmo vigor ao longo dos anos, havendo, mesmo, partes de nosso organismo que nem sequer realizam um trabalho de constante renovação, como é o caso das células nervosas. A Bíblia explica-nos que o envelhecimento é conseqüência do pecado, pois, até a queda do homem, não havia este processo, já que o homem fora feito para viver eternamente.

- Sendo, portanto, efeito do pecado, o envelhecimento traz, em si mesmo, circunstâncias que não são queridas pelo ser humano e que lhe representam um certo mal-estar, já que se trata de um processo para o qual o homem não foi criado, algo que lhe é estranho à sua natureza. Tudo aquilo que é estranho à natureza de alguém não é algo que se harmonize com este alguém, não é algo que seja facilmente assimilável nem tampouco algo que produza benefícios e vantagens.

- Por causa disso, o envelhecimento, assim como a morte física, são assuntos que trazem ao homem uma perplexidade e um certo inconformismo, que são naturais e que não representam qualquer atitude de rebeldia contra o Criador, mas se mostram como mais uma evidência de que não é este o projeto primitivo de Deus para o homem. Por isso, sonhos como o do “elixir da juventude”, que tanto animaram cientistas e pensadores ao longo dos séculos, continuam vivos e presentes nas mentes de todos os homens, ainda hoje. Aliás, quando vemos o sucesso que tem tido a chamada “medicina estética” e os investimentos milionários que faz a indústria farmacêutica para a promoção do prolongamento da vida e, mais, para retardamento ou eliminação de fatores de envelhecimento, não estamos a perpetuar os sonhos dos alquimistas medievais que buscavam um remédio que impedisse a possibilidade do envelhecimento? Como já dizia o sábio (e já então velho) Salomão: “o que foi isso é o que há de ser, e o que se fez, isso se tornará a fazer; de modo que nada há novo debaixo do sol.” (Ec.1:9).

- O primeiro ponto que temos de enfrentar, portanto, quando estamos a falar em limitações decorrentes do envelhecimento, é o fato de que, apesar de não termos sido feitos para aceitá-las, temos de nos conformar com elas, porquanto são conseqüências de nossa natureza pecaminosa. A aceitação do envelhecimento é uma medida extremamente salutar, que deve vir tanto do próprio que está envelhecendo, como, também, daqueles que estão à sua volta. A aceitação do envelhecimento importa, para o que está envelhecendo, em assumir a nova realidade, comportando-se de modo a se adaptar às mudanças, não buscando enganar-se com subterfúgios ou ilusórias promessas advindas no mundo contra esta inexorável realidade. Para os que estão à sua volta, o envelhecimento do próximo deve ser levado em conta, mediante a não marginalização do idoso, mas a contínua e progressiva alteração de atividades por parte do idoso que deverá, cada vez menos, ser aproveitado em atividades físicas para passar a exercer ações mais voltadas para o lado intelectual.

- Na vida familiar, a aceitação do envelhecimento por parte do idoso importa em delegação de tarefas que exigem desgaste físico e agilidade que não se apresentam tão intensamente. É necessário que os filhos compreendam que seus pais já não podem mais atuar como antigamente, buscando, sempre que possível, substituir os mais velhos naquelas tarefas que lhe exigem mais, como, por exemplo, a mãe idosa que já não mais consegue ter a mesma agilidade e condição física para fazer a higiene da casa, ou o pai que, antes, era o motorista de primeira hora para todos os integrantes do lar. Esta substituição deve ser vista com naturalidade, como um imperativo da idade, não como um fardo ou uma demonstração de inutilidade.

- Reside aqui, talvez, o grande problema quando estamos a tratar de terceira idade na família. Vivemos num mundo em que o ser humano é avaliado por aquilo que ele pode oferecer aos outros. A falta de Deus e, conseqüentemente, a falta de amor no mundo pecador, faz com que as pessoas sejam tratadas como meros instrumentos de benefícios e vantagens para os outros. O egoísmo dominante nas relações sociais, onde os homens são amantes de si mesmos, cruéis e totalmente abomináveis a Deus (cfe. II Tm.3:2-5; Rm.1:29-32), vê valor no ser humano apenas enquanto ele pode servir a seus interesses. Uma vez não mais servindo para tanto, os homens são, simplesmente, descartados, deixados à margem, sem qualquer importância.

- Ora, quando falamos dos idosos, esta indignidade a que é relegada a pessoa humana, fruto de um sistema dominado por Satanás (cfe. Ef.2:2; Jo.8:44), que odeia o homem, mostra-se evidente, pois, a partir do momento que surgem as limitações decorrentes da idade, não mais serve o ser humano para os propósitos de enriquecimento de alguns ou de obtenção de vantagens ou benefícios por parte de outros, e isto inclusive no ambiente familiar. No momento em que os homens e as mulheres tornam-se mais velhos, não podendo servir mais aos filhos, netos ou a seus empregadores, como antes, são vistos como pessoas “inúteis”, como pessoas de que não mais se tirarão tantas vantagens quanto antes. E o mais triste é que, os idosos, muitas vezes, aceitam esta consideração de que são, doravante, “inúteis”, de que sua “utilidade” era, tão somente, o de servir aos propósitos egoísticos dos outros (até porque, muitas vezes, são tão egoístas quanto os outros…). É a partir desta constatação que advém toda a discriminação, marginalização e sentimento de impotência e desencanto que cercam a questão da idade avançada na atualidade.

- Contudo, não é este o ponto-de-vista divino revelado nas Escrituras Sagradas. Deus não faz acepção de pessoas (Dt.10:17; At.10:34) e, portanto, não vê o idoso como uma pessoa inútil, até porque Deus não criou o homem para servir de objeto aos interesses egoísticos de outros seres humanos. Deus criou o homem com dignidade, tanto que o fez à Sua imagem e semelhança (Gn.1:27). Não seria na terceira idade, que, como vimos, é resultado de uma bênção de Deus, que o homem e a mulher deixariam de ser amados por Deus ou seriam, por Ele, considerados “inúteis”. Muito pelo contrário, Deus promete nos acompanhar e estar conosco todos os dias até a consumação dos séculos (Mt.28:20), ainda se estivermos na terceira idade (Is.46:4; Jo.21:18,19). A terceira idade é uma mudança de papel do ser humano diante dos seus semelhantes, nada mais do que isto, cabendo ao idoso aceitar esta realidade, agradecer a Deus por ter atingido esta fase da vida e se esforçar para cumprir o seu novo papel de acordo com a direção dada pelo Senhor.

- A primeira limitação da pessoa idosa é de natureza física. Como vimos, o envelhecimento é um processo biológico pelo qual não há mais a mesma renovação das células do organismo e o metabolismo vai se alterando, paulatinamente, de forma que o idoso já não tem mais a mesma agilidade, o mesmo vigor de antes (Jó 30:2). Não resta dúvida de que uma vida moderada, sem excessos, de acordo com os princípios estabelecidos na Palavra de Deus, trarão ao idoso um envelhecimento não mais lento, mas muito mais saudável. Disto temos provas nas próprias Escrituras, que nos falam de pessoas que, embora envelhecidas, em virtude de sua vida de comunhão com Deus, tiveram uma velhice de qualidade e altamente saudável, como nos mostram os casos de Moisés (Dt.34:7) e Calebe (Js.14:10,11). Entretanto, isto não impede que pessoas igualmente fiéis a Deus, em virtude da maneira como viveram ao longo do tempo, tenham tido uma velhice não tão saudável assim, pois, acima de tudo, devemos observar que aqui, como nunca, vigora a chamada “lei da ceifa”, de forma que, na velhice, colheremos o que plantamos, ao longo da vida, para a nossa vida física. Exemplos disso são os casos de Eli (I Sm.4:15,18) e de Davi (I Rs.1:1-4).

- Diante desta limitação de ordem física, o idoso deve, ao longo do tempo, desvencilhar-se de uma atividade de muita agitação, que exija dele muito esforço físico, passando a delegar estas atribuições aos mais jovens, o que inclui, inclusive, as atividades familiares e eclesiásticas. Nosso organismo envelhece e não podemos ter a mesma agenda, aos 60 anos, que tínhamos aos 40 e, muito menos, aos 20 anos. Torna-se, também, necessário bem dimensionar as tarefas e os encargos a serem assumidos, procurando-se, muito mais, servir de conselheiro, de orientador e de auxiliar do que de principal executor das atividades. Os idosos devem compreender que precisam entregar estas ações que exigem maior esforço físico aos mais jovens, sem abrir mão da experiência acumulada ao longo do tempo, mas dela fazendo uso em funções de orientação e supervisão, não mais de execução. Deus dá-nos o exemplo disto ao estabelecer que os levitas e sacerdotes deveriam servir como executores na casa do Senhor somente até os cinqüenta anos de idade (Nm.4:2,3; 8:24,25), mas que eram os anciãos aqueles que deveriam observar e realizar os julgamentos concernentes às questões mais graves, como as que se referissem à entrada do homicida involuntário nas cidades de refúgio (Dt.19:12).

OBS: A Constituição brasileira, aliás, tem dispositivo semelhante, ao impor a aposentadoria compulsória do funcionário público ou do magistrado aos 70 anos de idade, como se verifica dos artigos 40, inciso II e 92, inciso VI. Diz-nos a Bíblia que nossa justiça tem de exceder a dos escribas e fariseus (Mt.5:20), de modo que não podemos considerar como correta a total desconsideração desta limitação da pessoa idosa na igreja, em especial no que diz respeito ao seu governo. As experiências gerontocráticas (”gerontocracia” é o governo dos idosos) na história da humanidade nunca foram bem sucedidas, como se vê nos casos dos juízes Eli e Samuel, na Bíblia, ou, então, nos regimes comunistas da extinta União Soviética antes do último governo, de Mikhail Gorbatchev e na China até o período imediatamente subseqüente a Mao Tsé-Tung, de modo que devemos tomar cuidado e voltar aos princípios biblicamente estabelecidos para que o dinamismo do movimento pentecostal não venha, justo nos últimos dias em que estamos vivendo, a sofrer solução de continuidade por causa deste fator.

- A segunda limitação é de ordem psicológica.  Os idosos, como vimos, têm de aceitar a sua nova condição, não podendo se sentir inúteis, pois inúteis não são. A utilidade não deve ser medida com o olhar voltado para o passado. Aqui, aliás, deve estar bem presente o conselho dado pelo apóstolo Paulo, segundo o qual, devemos nos esquecer das coisas que para trás ficaram e prosseguir para o alvo da soberana vocação em Cristo Jesus (Fp.3:13,14). O idoso deve lembrar-se do passado, mas não como uma forma de nostalgia, de saudade de um tempo que não volta mais, não como uma fonte de depressão ou de sentimento de impotência e de inutilidade, como, infelizmente, costuma ocorrer nos nossos dias, mas, bem ao contrário, deve ver o passado como algo que só ele tem acesso para trazer, no presente, lições a serem dadas pelos mais jovens, a quem está garantido o futuro. O idoso deve ser conscientizado de que é a ponte entre o passado e o futuro, neste presente, sendo, portanto, de fundamental importância para a melhoria do presente no futuro. Como vimos supra, o idoso tem de ser uma fonte de esperança, não um repositório de frustração, impotência ou lamento.

- Um bom exemplo que temos na Bíblia a respeito desta disposição de ajuda para o futuro e de compreensão de suas limitações no presente em Barzilai, um idoso de 80 anos que foi de crucial importância para que Davi tivesse condições de retomar o trono que lhe havia sido usurpado por seu filho Absalão(II Sm.17:27-29). Barzilai não tinha vergonha alguma de dizer que era velho (II Sm.19:31-40), assumia a condição de que o que lhe estava reservado era esperar a morte, mas não cessava de ajudar os outros, tanto que conseguiu para um de seus servos as honrarias de que abrira mão.

- A atitude em relação à morte, a propósito, é um fator predominante na terceira idade. Embora a morte seja uma realidade iminente em qualquer fase da vida, pois a morte não tem data certa, o fato é que, na terceira idade, ela é sentida muito mais próxima do que nas demais fases da vida. O idoso, como ninguém, portanto, tem a morte como algo próximo e algo com que se deverá lidar diariamente, principalmente porque há a intensificação da degeneração do organismo, com os subseqüentes problemas decorrentes de enfermidades, que serão cada vez mais comuns e corriqueiras. Barzilai, mesmo, é um exemplo de um idoso que via a morte como seu destino. No entanto, o idoso não deve deprimir-se com a proximidade da morte, bem como seus familiares não devem permitir que esta preocupação, que é crescente e inevitável, assumam o grau de uma obsessão ou de uma perda da vontade de viver. Muito pelo contrário, é indispensável que esta realidade e este pensamento sejam moderados e que sirvam de estímulo e incentivo a que o idoso busque, o quanto antes, fazer valer a sua experiência para a montagem do futuro dos seus descendentes e para a melhoria do presente. Este mesmo sentimento que houve em Barzilai, de ajudar o rei destronado, de, após a vitória, fazê-la um benefício para o seu servo Quimã, deve estar no coração de todo idoso que, mesmo sabendo que a morte se aproxima, aproveitar o que Deus ainda lhe dá de vida para fazer o bem e ajudar os próximos, em especial, os seus descendentes, com a sua experiência acumulada ao longo dos anos.

- Também do ponto-de-vista psicológico, é fundamental que o idoso se sinta útil para os familiares. É indispensável que haja, por parte dos membros da família, a atribuição de funções e tarefas compatíveis com a idade e com o talento do idoso, a fim de fazê-lo sentir útil, o que, certamente, representará um alento e estímulo que, não raro, proporciona até maior longevidade. Caso não haja a possibilidade de atribuição de tarefas dentro do lar, é imperioso que se arrumem tarefas e atividades fora do lar, em serviços voluntários na comunidade ou na igreja, a fim de que o idoso se sinta útil. Temos uma experiência que muito nos mostrou a importância de atitudes como esta. Conhecemos um senhor que era fiscal de rendas do Estado de São Paulo e que se aposentou aos 70 anos de idade (a aposentadoria compulsória). A aposentadoria não tinha sido desejada e o senhor voltou a morar na sua cidade natal, vivendo praticamente sozinho. Entrou em profunda depressão, mas um familiar seu, sabendo da situação, acabou lhe convidando para que fosse trabalhar como voluntário no juizado de pequenas causas da cidade, como conciliador (pessoa que tenta o acordo entre as partes antes do caso ir para o juiz), já que referido cidadão era formado em Direito. O senhor aceitou o convite e executou este serviço, com extrema habilidade e proveito, por sete anos, até a sua morte, tendo, pouco antes de falecer, dito que agradecia a Deus pela oportunidade que tinha tido, naqueles anos, de ter podido contribuir para o bem-estar dos seus conterrâneos.

OBS: Também tivemos conhecimento, há alguns anos, de que, em uma cidade do país, a polícia estava recrutando idosos para servirem de “olheiros” em alguns pontos da cidade, contribuindo, assim, para o policiamento, tendo havido grandes resultados, já que os idosos costumam, mesmo, ficar nas praças e ruas das cidades, conversando, animadamente, entre si, não podendo os criminosos saber se estão, ou não, passando informações à polícia, informações estas que são muito precisas, dada a experiência e o conhecimento que os idosos têm sobre o cotidiano das cidades e bairros em que vivem.

- Neste particular, a igreja deve, também, melhor utilizar os seus idosos. Por não estarem mais submetidos ao cotidiano agitado dos grandes centros, os idosos são pessoas ideais para trabalhos que exigem tempo maior e dedicação, tais como os trabalhos de visitas, de acompanhamento e de oração, até porque orar não requer esforço físico nem agilidade, não sendo, pois, a idade um obstáculo para este ministério, mas, antes, até a oportunidade para que pessoas que, quando mais jovens, não oravam tanto, compensem, agora nesta fase da vida, o tempo em que deixaram de orar no passado. Não é de se estranhar, aliás, que os “círculos de oração” tenham se originado entre as irmãs de idade mais avançada. A Bíblia revela-nos que este é um trabalho próprio dos de mais idade, verdadeiros baluartes e colunas do povo de Deus, mesmo quando Deus estava em silêncio, como vemos nos exemplos de Simeão e de Ana, idosos de oração, com quem Deus falava, mesmo estando calado para o povo por mais de 400 anos (Lc.2:25-38).

- Terceira limitação que temos com relação aos idosos é a de ordem econômica. Os idosos, num mundo de extrema competição e rivalidade como o nosso, são marginalizados do mercado de trabalho, seja porque conseguiram a aposentadoria (algo cada vez mais raro e difícil no mundo de hoje, principalmente no Brasil), seja porque, simplesmente, não têm mais colocação, nem mesmo no emprego informal. Esta situação é das mais angustiantes para o idoso, principalmente para aqueles que, durante a vida, não tiveram o cuidado de prover o seu futuro. Por causa desta situação, muitas vezes, o idoso é considerado pelos familiares como um estorvo, como uma fonte de despesa, o que, efetivamente, é um absurdo e uma cabal demonstração de ingratidão por parte dos filhos e familiares mais próximos.

- Os idosos devem ser amparados por seus familiares, quando já não mais puderem prover os recursos para a sua própria sobrevivência. É um dever indeclinável dos filhos, sendo, aliás, um dos principais aspectos concernentes à honra que se deve dar aos pais, algo que não é meramente moral, mas que também se traduz em assistência material. Jesus deixou isto bem claro, ao recriminar tradição judaica que se desenvolvera, ao arrepio das Escrituras, que permitia que os filhos contribuíssem para o templo em detrimento da ajuda a seus pais (Mt.15:3-6). Devem os filhos se esforçar para que seus pais tenham uma vida minimamente digna, suplementando seus recursos quando insuficientes para a sua sobrevivência, como também buscando obter do Poder Público todos os benefícios a que seus pais têm direito (aposentadoria, carteiras garantidoras de gratuidade nos transportes públicos, de descontos na aquisição de medicamentos etc.). Aliás, o fato de os idosos não serem devidamente respeitados é uma prova de que a nação não é agradável a Deus (Is.3:1,5).

OBS: O homem é particularmente ingrato. Além desta observação de Jesus a respeito da tradição contrária ao sustento dos pais, temos até um provérbio judeu a indicar que nunca foi tão voluntário o cumprimento deste dever pelos filhos de Israel: “…Quando atingiam a maturidade, os filhos e as filhas tinham a obrigação de sustentar os pais, da melhor maneira que pudessem, quando isto se tornasse necessário. Deveriam tomar conta deles com devoção na doença e na velhice. ‘Meu filho’ escreveu Jesus Ben-Sira, o grande mestre de sabedoria de Jerusalém (c. do início do século II a.E.C.), ‘ ajuda a teu pai na velhice, e não o aborreças enquanto ele for vivo, e tem paciência com ele se a mente dele fraquejar.’ No entanto, nem todos os filhos e filhas judeus comportavam-se como modelos de devoção a seus pais nas horas da adversidade. Esses réprobos aparecem ilustrados no dito popular judaico, cheio de amargura:’ um pai pode sustentar dez filhos e, no entanto, dez filhos não podem sustentar um pai’…” (Nathan AUSUBEL. Relações familiares, esquemas tradicionais de.In: A Judaica, v.6, p.712).

- Sob o ponto-de-vista econômico, também, é importante salientarmos que os idosos não podem ser vistos como uma fonte de recursos dos mais jovens, que, não raras vezes, inclusive entre “crentes”, costumam considerar as parcas economias de seus pais como parte de seu orçamento, efetuando uma cruel exploração dos recursos econômico-financeiros dos mais velhos. Evidentemente que os idosos têm o dever de ajudar seus filhos e netos em algumas ocasiões de necessidade e de penúria, mormente nos tempos de dificuldades em que vivemos. Aliás, nas regiões mais carentes do país, são os idosos aposentados quem sustentam filhos e netos e movimentam a economia local. No entanto, não deve haver exploração, ou seja, devemos nos lembrar que os idosos têm suas próprias despesas e não podem, de forma alguma, ser privados do mínimo indispensável à sua sobrevivência por causa de despesas imoderadas dos seus descendentes, os quais, muitas vezes, já constituíram famílias. Aliás, é com pesar que temos visto, nestes dias tão trabalhosos e difíceis (II Tm.3:1), que muitos têm explorado os idosos, inclusive servindo-se deles para obter aposentadorias que nunca são utilizadas por eles, mas que saem direto do banco para o bolso dos familiares mais jovens, atitudes repugnantes mas cada vez mais freqüentes num mundo de maior iniqüidade (Mt.24:12), onde pais e filhos estão sempre em conflito (Mt.10:21).

- A quarta limitação dos idosos é de ordem social. Os idosos, em virtude de suas limitações físicas, psicológicas e econômicas, acabam sofrendo limitações de ordem social, porquanto seu modo de vida diferenciado em relação às demais faixas etárias causam um certo alijamento do dia-a-dia da sociedade. Entretanto, este alijamento não pode se traduzir em marginalização. Os idosos devem ser aproveitados em atividades e em tarefas que tragam um bem-estar a si mesmos bem como à própria comunidade e não tratados com desdém ou com repugnância, como sói ocorrer, inclusive na igreja local. Devemos levar em consideração as observações e as limitações dos idosos na igreja local, jamais lhes privando de participar das reuniões e, o que é mais importante, permitindo que eles possam freqüentar as atividades da igreja sem se sentir incomodados ou marginalizados. Vivemos num país onde o número de pessoas jovens ainda é superior ao de pessoas idosas, apesar de estarmos num processo de envelhecimento acentuado de nossa população, e, por causa disto, não são poucas as atitudes que se têm tomado nas igrejas que tornam incômodas nossas reuniões para os idosos, quando não as afugentam, Faz-se preciso que a liderança da igreja local tome providências no sentido de evitar que isto aconteça e que permita a participação ativa dos idosos nas atividades da igreja, bem como haja, na igreja, um espaço, para o atendimento e supressão das necessidades peculiares a esta faixa etária, que está aumentando em nosso país.

OBS: Sendo, como são, os idosos peças importantes em certas tarefas da igreja local, como visitas, acompanhamentos, aconselhamentos e, sobretudo, oração, não podem as lideranças alijar os idosos do cotidiano da igreja local, nem ceder ao vigor, encanto e modismo dos mais jovens, muito especialmente na liturgia das reuniões, pois isto representará um entristecimento desnecessário e um desalento aos mais idosos, que trará inúmeros prejuízos ao desenvolvimento da obra. Temos visto, com tristeza, que muitos irmãos de idade, em virtude dos “modismos” e inovações trazidos por jovens inconseqüentes, têm deixado de congregar e de participar das atividades da igreja local, algo que, efetivamente, não pode ser admitido nem tolerado pelo ministério.

III. AS POSSIBILIDADES DA TERCEIRA IDADE

- Como já temos dissertado neste estudo, a terceira idade é tão somente uma nova fase da vida humana, o resultado de uma bênção divina e o idoso deve, assim como aqueles que estão à sua volta, conscientizar-se desta mudança e passar a atuar na família, na igreja e na sociedade dentro destas novas perspectivas, assumindo novas tarefas, novas atividades, condizentes com a sua nova faixa etária e que estejam de acordo com o seu talento, algo que se torna tanto mais importante quanto sabemos que a população de idosos tem crescido em todo o mundo, inclusive no Brasil.

OBS: “…Segundo o último censo do IBGE, em 2000, o número de idosos atingiu cerca de 8,6% da população, o que eqüivale a 15 milhões de pessoas. Para os próximos vinte anos, a previsão é de que esse número será de 15% do total da população. É uma estatística que não pode ser mais ignorada.O aumento da expectativa de vida do brasileiro se deve, entre outros fatores, ao progresso da medicina, às melhores condições sociais e econômicas e - porque não dizer - ao rígido controle demográfico e a uma mentalidade anti-vida, que têm levado à diminuição da taxa de fecundidade nos últimos anos. Daí, uma expressão usada para definir o Brasil de hoje: “um país jovem de cabelos brancos”.Era de se desejar que a longevidade fosse acompanhada de melhor qualidade de vida para os que alcançam idade mais avançada.No Brasil, porém, enquanto a média de vida é de cerca de 68 anos, a média de idade com qualidade de vida é de mais ou menos 60 anos.Além disso, o abandono de nossos idosos se evidencia na precariedade dos serviços e programas sociais e de saúde nessa faixa etária, particularmente para os de baixa renda….( D. Raymundo DAMASCENO. Fraternidade e vidas idosas. In:Campanha da Fraternidade 2003. Textos Complementares. http://www.cf.org.br/cf2003/fraternidade_eas_pessoas_idosas.php  Acesso  em 10 abr.2004).

- Vimos que uma das características da terceira idade é a maior intensidade que se deve dar à orientação e supervisão do que à execução, pois, além de não haver mais o vigor e a agilidade física, o idoso tem maior experiência e sabedoria. Portanto, uma das principais tarefas a ser assumidas pelo idoso, nesta sua fase da vida, é a atinente à orientação, aconselhamento e supervisão.

- Diz-nos as Sagradas Escrituras que uma das mais belas bênçãos que Deus reserva ao homem ou mulher de bem é a de se tornar avô. O salmista afirma que o homem que teme ao Senhor, que anda nos Seus caminhos, entre outras bênçãos, verá os filhos de seus filhos e a paz sobre Israel (Sl.128:1,6). Ser avô, portanto, é uma grande bênção de Deus para o ser humano. Segundo temos ouvido dos irmãos em Cristo que têm recebido esta dádiva celestial, a alegria de ser avô é mais sublime até que a de ser pai, pois, quando alguém se torna avô, dizem, tem-se a mesma alegria que se teve quando foi pai, sem que, no entanto, se tenha o mesmo fardo e responsabilidade. Tem-se, assim, o mesmo prazer sem a correspondente dose de responsabilidade.

- A educação dos filhos, conforme já vimos, é, sem dúvida alguma, responsabilidade dos pais, responsabilidade esta que é indelegável, intransferível. Assim, não podem os avós assumir o lugar dos pais, como tem ocorrido com cada vez maior freqüência nos nossos dias, seja porque tem aumentado o número de pais solteiros, separados ou divorciados, seja porque os pais, ambos, trabalham fora e deixam seus filhos aos cuidados dos avós durante boa parte do dia, até porque são os avós as pessoas mais confiáveis e habilitadas a exercer este papel.

- Entretanto, embora compreendamos que os avós sejam as pessoas mais adequadas a ficar com os netos durante o período de ausência dos pais no lar, por causa do trabalho, não podemos permitir que a esta permanência com os avós corresponda a transferência ou delegação do poder de educação dos netos. Os avós são auxiliares na tarefa de educação dos netos, ou seja, têm o dever de ajudar os seus filhos a educar os netos, mas ajuda que deve se circunscrever a orientações, sugestões, conselhos e observações a serem feitos aos pais, já que os avós têm mais experiência e, no mais das vezes, conhecem muito bem seus próprios filhos, que agora se tornaram pais. Dentro desta linha de pensamento, não vemos com bons olhos atitudes assumidas por alguns avós, no sentido de imprimirem aos netos uma determinada educação, aproveitando-se do tempo que com eles convivem, sem consultar os pais ou lhes dar alguma satisfação, gerando-se conflitos na criança quanto ao papel de cada qual, que serão nefastos para a formação do caráter e da personalidade da criança.

OBS: Neste particular, temos conhecimento do testemunho de um pastor que disse ter recebido a visita de seu sogro, também um pastor (aliás, um dos mais importantes pastores de nossa denominação, um dos desbravadores do trabalho missionário na América do Sul), algum tempo depois de ter passado alguns dias na casa do seu sogro, numa cidade mais ou menos distante de onde morava. O pastor, avô que era, havia observado que, durante aqueles dias, seu genro não havia tratado bem os netos. Deixou o tempo passar e, quando teve um tempinho, viajou para a casa do genro, com o único objetivo de lhe dar orientações a respeito das necessárias mudanças que deveria haver na educação dos seus netos. Sem ofender a autoridade paterna, sem se imiscuir no relacionamento dos netos com o genro dele e pai deles, o obreiro cumpriu seu papel de avô. Que exemplo a ser seguido!

- A criação e educação dos filhos é tarefa reservada aos pais (Dt.6:7-9) e, dentro do princípio de independência existente entre o lar dos pais e o lar dos respectivos filhos que se casam (Gn.2:24), qualquer interferência dos avós, além do auxílio e da ajuda na criação e educação dos netos, é uma ação que contraria os princípios bíblicos concernentes à família, de modo que não podem ser tolerados, admitido, muito menos praticados por quem se diz servo de Deus.

- A orientação, aconselhamento, sugestão e supervisão não devem ocorrer apenas no que se refere à educação e criação dos netos, mas deve abranger, também, outros aspectos da vida do casal. Assim, é missão dos idosos continuar orientando seus filhos, embora já casados, naquilo que entenderem não estar sendo bem conduzido pelos filhos, pois o conselho é sempre bom para o bom êxito dos projetos (Pv.15:22). O idoso estará, assim, fazendo valer a sua experiência e se sentindo útil, cumprindo o seu papel de ponte entre o passado e o futuro. Os jovens devem, diante disto, buscar sempre o conselho dos mais idosos, não se considerando sabichões nem auto-suficientes, pois, como nos manda a Bíblia, devemos considerar os outros superiores a nós mesmos (Fp.2:3). Não nos envergonhamos de dizer que sempre pedimos, ainda hoje, com quase quatro décadas de vida, conselhos aos mais idosos, independentemente de sua escolaridade ou erudição, até porque os idosos são formados na “escola da vida”, que vale muito mais do que títulos e diplomas universitários no cotidiano de nosso viver. Embora Salomão não tivesse ainda recebido a sabedoria de Deus em uma intensidade especial, começou muito bem seu governo porque buscou conselhos junto a seu pai, Davi (I Rs.2:1-11), algo que já seu filho Roboão não fez e, por isso, perdeu praticamente todo o reino.

- Entendemos, mesmo, que o idoso deve usar esta sua capacidade decorrente da experiência na própria orientação e aconselhamento junto ao ministério na igreja local, principalmente se for um obreiro jubilado. O idoso deve ser, sempre, uma sentinela, alguém que está vigilante e que, ao perceber qualquer movimento estranho que pode comprometer a saúde da obra de Deus, com respeito e equilíbrio, apresentar a sua notícia a quem de direito, zelando, assim, pelo bem-estar da igreja do Senhor. Conhecemos um diácono que, no alto dos seus 92(noventa e dois) anos de idade, não cessa de estar atento a todo e qualquer movimento, atitude ou ensino estranhos que venham a se aninhar na casa do Senhor. Sempre com extrema habilidade e fundamentação bíblica, ao notar qualquer coisa que não se apresenta como correta, escreve cartas às pessoas envolvidas, cartas que, muitas vezes, têm servido para edificação e melhoria espiritual do povo de Deus.

- O idoso deve dedicar-se mais à oração. A oração é uma atividade que requer menor esforço físico e mental, sendo, portanto, uma tarefa apropriada para pessoas com limitações físicas como é o idoso. À medida que os anos vão avançando, o idoso já não pode ler tanto a Palavra de Deus, pois os problemas de visão se acentuam, como também já não tem mais saúde física para se submeter a longos períodos de jejum. Resta, portanto, a oração, como uma arma importante que Deus deixa nas mãos do idoso, para que interceda junto a Deus pelo bem de todos os seus familiares, de seus irmãos em Cristo, de sua comunidade, de seu país. Como já dissemos supra, nos dias do nascimento de Jesus, o templo em Jerusalém tinha, pelo menos, duas colunas de oração, Simeão e Ana, que foram, não sem razão, exatamente as pessoas que puderam contemplar naquele pequenino bebê o Salvador do mundo. O idoso, assim, dedicando-se à oração, será aquele que renovará a esperança da igreja, que poderá ver, nas mínimas coisas, a grandiosidade das promessas e da fidelidade do Senhor. Temos o prazer de conhecermos e privarmos do amor e da amizade de um presbítero no litoral sul paulista, que, aliás, neste ano de 2004, no mês de janeiro, completou 100(cem) anos de idade. Com todo o peso de seu centenário, que o impede, inclusive, de ir regularmente à igreja local onde congrega, ele sempre diz que não cessa de orar pelos seus irmãos. Temos a convicção de que esta oração intercessória tem sido extremamente agradável ao Senhor, um verdadeiro incenso que tem subido como cheiro suave a Deus e que tem sido um dos principais motivos pelos quais o Senhor tem granjeado este amado irmão com um século de vida!

IV - A PROMESSA DA VELHICE FELIZ E FRUTÍFERA

- De tudo quanto já analisamos, verificamos que a velhice, como tudo na “vida debaixo do sol”, tem suas vantagens e desvantagens. Se, de um lado, o idoso é uma pessoa dotada de experiência, podendo, por isso, orientar os outros e contribuir muito para a glória do Senhor, de outro, possui limitações decorrentes de sua idade.

- No entanto, quando vemos o texto sagrado, observamos que a velhice não é um fardo, mas, antes, uma promessa divina, uma bênção que o Senhor reserva àqueles que Lhe tem servido fielmente. Se é fato que muitos atingem a terceira idade em meio a tristes situações, a grandes sofrimentos, também vemos que o Senhor reservou aos justos uma velhice que, tendo, naturalmente, os estorvos próprios da idade, que, como já salientamos, são resultado do pecado, são uma oportunidade para que o nome do Senhor seja glorificado e os justos, em recompensa por sua fidelidade, desfrutem de momentos ímpares de realização e de contentamento.

- A Abraão, por exemplo, prometeu Deus que morreria em boa velhice (Gn.15:15). Ao mesmo tempo em que o Senhor revelava ao patriarca que só a quarta geração sua viria, efetivamente, a conquistar a terra de Canaã, também anunciava ao patriarca que ele morreria em boa velhice. Com efeito, quando vemos a vida de Abraão, notamos que, após ter atingido o ápice de seu relacionamento com Deus, quando não titubeou em levar Isaque ao sacrifício, o patriarca, tendo enviuvado, casou-se com Cetura, com quem teve seis filhos. Mostrava, assim, ainda ser abençoado pelo Senhor quanto à reprodução biológica.

- Como se não bastasse esta fecundidade, o velho patriarca ainda teve prosperidade na sua vida familiar, tanto no que tange ao aspecto emocional, quanto ao material. Embora tivesse entregado todo seu patrimônio a Isaque, Abraão ainda tinha o bastante para presentear seus outros filhos, revelando, assim, tanto um bem-estar material como um relacionamento afetivo positivo com eles. Por fim, Abraão nos é mostrado como um pai dedicado e que usava toda sua experiência para bem orientar seus filhos, tanto que os aconselhou a que vivessem na terra oriental, a fim de que não colidissem com os desígnios divinos, que reservavam Canaã para Isaque e seus descendentes. Não foi à toa que os filhos de Cetura deram origem às prósperas tribos árabes do deserto, até hoje existentes na região.

- Esta bênção divina é sintetizada nas Escrituras pela expressão “velho e farto de dias” (Gn.25:8), que é utilizada, também, em relação a Isaque (Gn.35:29), Jó (Jó 42:17), Davi (I Cr.29:28) cujo significado é idoso e satisfeito. Vemos, pois, que o Deus prometeu a Abraão foi a de que teria idade avançada, mas, também, satisfação, um sentimento de realização. Este é, também, o sentido de “boa velhice”, expressão que aparece na promessa que Deus dá a Abraão e que também qualifica a terceira idade na vida de Gedeão (Jz.8:32) e de Davi (I Cr.29:28).

- A promessa da velhice feliz e frutífera, feita individualmente a Abraão, é uma promessa extensiva a todos os justos, como nós a encontramos no Sl.92:12-15. A velhice, como vimos, é resultante de diversos fatores, mas, para o justo, representa um período de felicidade, de satisfação.

- A promessa de felicidade e satisfação na velhice, portanto, não é uma promessa geral, mas restrita apenas aos justos. Os exemplos que já mencionamos bem revela isto: somente homens justos como Jó, Abraão, Isaque, Gedeão e Davi, puderam desfrutar desta promessa. Ao mencionar a promessa da velhice, o salmista fala do justo. Mas quem é este justo? O próprio texto explica: “os que estão plantados na casa do Senhor” (Sl.92:13a).

- Esta expressão do salmista faz-nos lembrar outra, do Senhor Jesus, que disse que “Toda planta que meu Pai celestial não plantou será arrancada” (Mt.15:13a), que nos dá conta de que a plantação é uma obra de Deus, a indicar que estamos a tratar da salvação que, como já vimos em lição anterior, é uma promessa que tem sua origem em Deus.

- Desta maneira, percebemos claramente que a promessa da velhice feliz e frutífera é dirigida ao salvo, ou seja, à Igreja, pois somente o justo, aquele que é plantado na casa do Senhor, e plantado pelo próprio Deus, dará os frutos viçosos e florescentes na velhice.

- Outra indicação de que a promessa diz respeito à Igreja, temos no fato de que o salmista fala que os justos “ainda darão frutos na velhice”. O uso de “ainda” demonstra que se trata de pessoas que, ao longo de sua existência, deram frutos. Isto relaciona, aliás, a promessa da velhice com a lei da semeadura (Gl.6:7). Assim, se não só os justos que atingem a terceira idade, o fato é que a felicidade e frutificação da velhice só pode ser algo agradável e espiritual para aqueles que, durante sua existência, assim procederam, pois, como ensina o Senhor Jesus, uma árvore má não pode dar bons frutos (Mt.7:18). Não é por outro motivo que Elifaz, o amigo de Jó, diz que os justos são recolhidos na velhice como “feixes de trigo a seu tempo”, ou seja, a morte de um justo idoso é a colheita de alguém que deu muito fruto, que serviu de instrumento para a alimentação espiritual de muitos (Jó 5:26).

- Estes frutos, segundo a promessa, serão viçosos e florescentes, ou, na Versão Almeida Revista e Atualizada, “cheios de seiva e de verdor”. É mais uma indicação de que se trata de promessa dirigida à Igreja, pois para que e tenha fruto “cheio de seiva”, ou seja, fruto com substância, com conteúdo, é preciso que se esteja ligado à videira, que o idoso, em questão, seja alguém que se constitua em uma vara desta videira (Jo.15:5). Para que este fruto seja “florescente” ou “cheio de verdor”, ou, ainda, “verdejante” (NVI), é preciso que não tenha sofrido o efeito do tempo, que se mantenha renovado a cada dia, o que somente é possível para aquele cujo homem interior é uma nova criatura a cada manhã (II Co.4:16), aquele que está em Cristo Jesus (II Co.5:17).

- O propósito da promessa também nos mostra que se trata de promessa dirigida à Igreja. Diz o salmista que a produção de frutos viçosos e florescentes se faz “para anunciarem  que o Senhor é reto” (Sl.92:15a). O objetivo pelo qual o Senhor faz com que o justo tenha longos dias de vida sobre a Terra é o de mostrar a toda a humanidade a Sua justiça, a Sua retidão. A vida do justo idoso é um testemunho da retidão divina, é uma verdadeira pregação do Evangelho. O justo idoso proclama, com a sua vida feliz e frutífera, que Deus é justo, que Cristo é a nossa justiça (I Co.1:30).

- Assim, embora possamos dizer que a promessa da velhice é uma promessa material, na medida em que está relacionada com a “vida debaixo do sol”, é inegável que seu propósito é espiritual, na medida em que serve de testemunho da justiça de Deus para todos os homens. Não é por outro motivo, aliás, que, ao término do seu cântico, o salmista tenha reconhecido e proclamado que o Senhor era a sua rocha e que nEle não havia injustiça (Sl.92:15b). A longevidade de um servo do Senhor, por tudo que ocorre com Ele na sua terceira idade, é uma demonstração cabal de que Deus é justo. Aliás, na velhice, o próprio justo tem a oportunidade de verificar que Deus é justo, o que aumenta, ainda mais, a força de seu testemunho. O salmista mostra isto, ao dizer que, na sua velhice, podia constatar a justiça de Deus, inclusive nas coisas materiais (Sl.37:25).

- Por isso, o justo que alcança esta promessa é dito que morre em “boa velhice” ou que é “velho e farto de dias”, expressões que denotam satisfação, realização, bem-estar. O servo do Senhor que é agraciado com a longevidade desfruta o sentimento de gozo pela compreensão, na sua vida, de que Deus é justo, que é Ele próprio o escudo do servo de Deus, o seu grandíssimo galardão, como, aliás, Se identificou a Abraão na oportunidade em que lhe prometeu a velhice (Gn.15:1).

- Este propósito espiritual é repetido no Salmo 71, onde o salmista pede a Deus que não o desampare apesar de seus cabelos brancos, pois ele ainda queria anunciar a força e o poder de Deus às gerações mais novas (Sl.71:18), assim como a própria justiça de Deus (Sl.71:19). Vemos, pois, que o objetivo de o Senhor dar longevidade a Seus servos outro não é senão a proclamação da Sua justiça, tanto que promete, através do profeta Isaías, ser o mesmo para com Seus servos mesmo na velhice (Is.46:4). O apóstolo Paulo é um exemplo disto, pois, mesmo velho (Fm.9), persistia em combater o bom combate e fazaer por merecer a coroa de justiça (II Tm.4:7,8).

- Muitos têm esperado uma “velhice feliz”, entendendo esta como sendo a obtenção de uma aposentadoria condigna (algo cada vez mais difícil), com saúde física, que permita não depender de ninguém e desfrutar dos momentos de ócio, merecidos após uma longa existência. No entanto, o que Deus promete é algo bem diverso: é a possibilidade de usar a experiência de vida para testemunhar e anunciar a justiça e o poder de Deus. Ainda que haja dificuldades econômico-financeiras, ainda que haja, mesmo, problemas de saúde, o fato é que o servo do Senhor que chega à terceira idade, é uma testemunha viva da retidão de Deus, é alguém que, com sua vida e experiência, tem, na sua existência, a oportunidade de proclamar que Deus é a nossa rocha e que nEle não há injustiça, o que trará uma satisfação, um gozo, uma alegria espiritual que dinheiro ou saúde física alguma poderão dar. Que possamos ser beneficiários desta promessa. Amém!

Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco é Presbítero na Assembléia de Deus, Belenzinho - São Paulo, professor de Escola Bíblica Dominical, professor da Faculdade Evangélica de São Paulo (FAESP) e colaborador do Portal Escola Dominical.

Publicado no Portal EscolaDominical (http://www.escoladominical.com.br/dicas1.asp?cod_dt=101&cod_dia=2185)

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