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“Por que estás abatida, ó minha alma?” (Salmos 42 e 43)



David Roper

Anos atrás, a revista norte-americana Newsweek dedicou sua capa e um artigo principal ao tema “Como Enfrentar a Depressão”. O artigo dizia: “Não há dúvida de que a depressão, ao lado das principais doenças mentais… está agora virtualmente epidêmica - e o suicídio é sua conseqüência muito freqüente”1 .

Mais de 75.000 norte-americanos cometem suicídio a cada ano. Centenas de milhares cometem suicídio por ano em todo o mundo. Além desses, muitas outras tentativas de suicídios não são registradas. A principal causa dessa trágica perda da vida é a depressão. As autoridades no assunto dizem que “a todo e qualquer momento, cerca de cinco por cento da população estão deprimidos” e que “cerca de um em cada 20 cidadãos sofre de depressão mais intensamente”2 . Mais de quatro milhões de pessoas por ano, só nos Estados Unidos, precisam de cuidados médicos especiais por causa de uma depressão mais grave3 .

A depressão não respeita ninguém. Ricos e pobres, quem têm nível escolar e quem não tem, os que são e os que não são bem sucedidos - todos podem sofrer dessa moléstia. Poderíamos compilar uma lista impressionante de personalidades que sofreram de depressão; entre elas estão: Abra- ham Lincoln, Vincent Van Gogh, Sir Winston Churchill e o brasileiro Alberto Santos Dummont. Naturalmente, há vários tipos de depressão.

Neuroses e psicoses devem ser tratadas por psicólogos e psiquiatras profissionais, às vezes, com medicações e até hospitalização. A variedade mais comum atinge a maioria de nós pelo menos uma vez ou outra. É chamada de tristeza, melancolia, “ficar para baixo”. Certa mulher a denominou como “chorar bastante”.

No livro When Life Tumbles In (”Quando a Vida Desaba”), Batsell Barrett Baxter partilou várias cartas recebidas dos ouvintes de um programa norte-americano chamado “The Herald of Truth” (”O Arauto da Verdade”)4 . Certa mãe escreveu:

Esta mensagem [sobre desânimo] teve um valor significativo para mim. Minha carga é pesada e às vezes sinto que simplesmente não posso continuar. Perdi o emprego e estou no seguro-desemprego desde abril deste ano. Estou tentando arranjar emprego mas não consigo achar nenhum. O serviço social de reabilitação vocacional está me mandando para a escola, na esperança de que eu consiga finalmente um emprego e sustente meus dois filhos sozinha… Tenho uma vida muito solitária. Sinto-me tão sozinha e deprimida, tão desanimada com todos os meus problemas. Não tenho a quem recorrer nas horas de necessidade5 .

O cristão não está imune a esses sentimentos de desespero. A maioria de nós não colocaríamos os nossos sentimentos em termos tão dolorosos, mas não seríamos humanos se às vezes não nos sentíssemos oprimidos pela vida. Não devemos querer nos agarrar a essas emoções negativas, mas experimentá-las é algo do que não temos por que nos envergonhar. Jó, Moisés, Davi, Elias e Jeremias passaram por períodos de desânimo. Como povo de Deus, porém, temos fontes que o mundo não tem.

Neste estudo examinaremos dois salmos que mostram como o salmista lutou contra a depressão e o desespero: Salmos 42 e 43.

Salmos 42 e 43 estão interligados; talvez fossem originalmente um único salmo6 . Os dois salmos abordam o mesmo tópico - um forte desejo de voltar para Jerusalém para adorar a Deus - e expressam suas idéias numa linguagem semelhante (cf. 42:9; 43:2).

Leia os antigos subtítulos dos salmos nesta seção do Livro de Salmos. Aparece um subtítulo no Salmo 42 e também nos Salmos 44 a 49, mas não há nenhum subtítulo no salmo 43. Aparente- mente, o subtítulo do salmo 42 deveria servir também para o salmo 43.

A prova mais relevante de que esses dois salmos estão juntos é que, juntos, eles se dividem naturalmente em três seções, com expressões quase idênticas no final de cada seção. Observemos Salmos 42:5:

Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu.

Compare a linguagem aqui com 42:11 e 43:5.

Estaremos, portanto, estudando os dois salmos como uma só unidade7 .

Para apreciar melhor a profunda emoção dos salmos, reservemos alguns momentos para consi- derar a situação em que o salmista se encontrava. Entre outras coisas, especularemos a identidade do escritor.

O subtítulo de Salmos 42 diz: “Ao mestre de canto. Salmo didático dos filhos de Coré”8 . “Os filhos de Coré” eram músicos selecionados por Davi para a adoração no templo. Infelizmente, “um [salmo didático] dos filhos de Coré” poderia ser um cântico escrito por um ou mais descendentes de Coré, ou poderia ser uma canção escrita para eles cantarem. O subtítulo não determina a questão da autoria.

Vejamos a situação retratada nos dois salmos. O versículo 6 diz: “Sinto abatida dentro de mim a minha alma; lembro-me, portanto, de ti, nas terras do Jordão, e no monte Hermom, e no outeiro de Mizar”. O “monte Hermom” ficava ao norte do mar da Galiléia. Aparentemente, o escritor estava na região norte da Palestina9 .

Por alguma razão, o salmista estava impossibilitado de comparecer perante Deus em Jerusalém. Em 42:2 ele indagou: “Quando irei e me verei perante a face de Deus?” A expressão hebraica “me verei perante a face de Deus” se refere a adorar a Deus no santuário10 . Com relação a isso, observemos que o autor era um músico que tocava lira (43:4) e era um líder de adoração (42:4); no passado, ele liderara a procissão de romeiros até a Cidade Santa.

Não está claro por que o salmista não podia ir a Jerusalém. O salmo usa uma linguagem figurada relacionada a doença e saúde várias vezes (42:10, 11), o que levou alguns estudiosos a especular que uma doença grave o impedia de adorar na casa de Deus11 . O salmo diz mais, porém, sobre os inimigos do salmista (42:3, 9, 10; 43:2). Talvez seus inimigos tenham impedido que ele fosse a Jerusalém nos dias de festa.

Se levarmos em conta a liberdade poética, o salmo poderia ter sido escrito por Davi (Charles H. Spurgeon disse que o salmo “cheira a Davi”12 ) - especificamente quando Absalão usurpou o trono e Davi retirou-se para Maanaim na parte norte da região leste do Jordão13 . Quando Davi fugiu de Jerusalém, ele disse o seguinte a Zadoque, o sumo sacerdote:

Se achar eu graça aos olhos do Senhor, ele me fará voltar para lá [Jerusalém] e me deixará ver assim a arca como a sua habitação [a tenda que abrigava a arca]. Se ele, porém, disser: Não tenho prazer em ti, eis-me aqui; faça de mim como melhor lhe parecer (2 Samuel 15:25, 26).

Em outras palavras, Davi não sabia se ele voltaria ou não para Jerusalém. Essa incerteza poderia ser suficiente para produzir estes salmos.

Existem outros argumentos em defesa da autoria de Davi: ele tocava lira14 , e tinha conduzido o povo para dentro da cidade quando a arca foi trazida para Jerusalém. Por outro lado, há várias dificuldades ao se  defender a autoria de Davi. A geografia não se encaixa exatamente e enquanto Davi estava em Maanaim, ele o estava literalmente cercado de inimigos que o ridicularizavam dizendo: “O teu Deus, onde está?” (v. 3).

Muitas possibilidades alternativas já foram propostas15 . Pode ser que jamais solucionemos a questão da autoria destes salmos, mas quem quer que tenha escrito, a angústia e a confusão em seu coração eram muitos reais. O salmista retrocede e avança entre o lamento pessimista e a confiança otimista.

Observamos anteriormente que há uma expressão recorrente em 42:5; 42:11 e 43:5. Utilizando essas expressões como pontos divisórios, os salmos naturalmente se ordenam em três seções.

Os problemas sublinhados em cada seção são semelhantes, mas para os presentes propósitos, analisaremos os três “D’s” do desespero16 . Queremos analisar seriamente a pergunta do salmista: “Por que estás abatida, ó minha alma?” Talvez venhamos a descobrir pelo menos parte da razão por que s estamos tantas vezes deprimidos, desanimados e desalentados.

POR QUE FICAMOS DEPRIMIDOS? (42:1-5)

Salmos 42 começa dizendo: “Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma” (v. 1). A cena pode ser a de uma corça suspirando após ser perseguida por inimigos. É mais provável que a situação seja a de uma corça numa região árida, entorpecida e morrendo por falta de água17 . A palavra hebraica traduzida por “suspira” não se refere tanto à abertura de boca, esticando-se a língua, quanto ao grito de suspiro de um animal numa necessidade desesperada de água. O salmista estava dizendo: “É assim que a minha alma anela por ti, ó Deus!”

O pensamento tem continuação no versículo seguinte: “A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo” (v. 2a). Os antigos chamavam a água corrente de “água viva”, em contraste com a água serena e parada. Deus era um Deus “vivo”, em contraste com os ídolos sem vida adorados pelas nações vizinhas de Israel. O salmista ansiava por Deus, a fonte e o sustentador de toda a vida.

Nós temos esse tipo de sede por Deus? Ninguém tem sede daquilo que não conhece. Quando moramos na Austrália por dez anos, minha esposa, Jo, tinha vontade de beber um refresco chamado Dr. Pepper, que não havia naquele lugar. Durante os dez anos em que moramos lá, nunca encontrei um australiano que tivesse vontade de beber esse refresco. Por quê? Nenhum deles havia provado Dr. Pepper, e por isso não tinham vontade de tomá-lo. Se nossas almas nunca têm sede de Deus, talvez seja porque jamais estivemos perto do Senhor.

O salmista tinha uma sede específica em mente. Ele sabia que poderia ir até Deus a qualquer hora por meio da oração (como estava fazendo nestes salmos). A última parte do versículo 2 revela qual era o seu pedido específico: “quando irei e me verei perante a face de Deus?” Como observamos anteriormente, “ver-se perante a face de Deus” era uma figura de linguagem hebraica que se referia a comparecer perante Deus no tabernáculo ou templo. Todo homem judeu era obrigado a fazer três visitas anuais à casa de Deus18 . O salmista estava impossibilitado de ir e isto o entristecia muito! A pergunta dele era: “Quando me verei perante a face de Deus?” Ele queria saber quando sua súplica para ir a Jerusalém seria atendida.

No versículo 3 ele falou de sua angústia: “As minhas lágrimas têm sido o meu alimento dia e noite” (v. 3a). Sem condições de comer ou dormir, o único sabor que sua boca provava era o gosto salgado das lágrimas que escorriam pelo seu rosto. Este é um retrato clássico de depressão. No final do versículo 3, ele disse que a dor no coração era intensificada pelos insultos dos inimigos: “…me dizem continuamente: O teu Deus, onde está?” Ele estava cercado de descrentes que conheciam seus desejos e súplicas. Eles o ridicularizavam, provavelmente fazendo o seguinte tipo de comentário: “Parece que o seu Deus não está por perto. Com certeza, ele não está respondendo as suas orações! Acho que você não é importante para Ele!” Faziam isto “continuamente”, ou o dia todo. Eles o deixaram “pra baixo”! Não pode haver maior insulto ao homem piedoso do que perguntar a ele: “Por que seu Deus não está ajudando você? Onde Ele está?”

Geralmente em tempos de dificuldade, pensamos nos velhos dias mais felizes. O salmista retrocedeu aos dias em que ele podia ir às festas.

Lembro-me destas coisas - e dentro de mim se me derrama a alma -, de como passava eu com a multidão de povo e os guiava em procissão à Casa de Deus, entre gritos de alegria e louvor, multidão em festa (v. 4).

Como sempre, essas lembranças agridoces trazem mais sofrimento do que alegria. Ao analisarmos os quatro primeiros versículos de Salmos 42, ficamos impressionados com o amor a Deus que o salmista demonstra, seu amor pelos dias santos e seu desejo de adorar a Deus com o povo de Deus. Ficamos, todavia, entristecidos com o seu estado emocional depressivo. Por que o salmista estava deprimido? Suponhamos que ele estava deprimido porque estava olhando demais para o passado e o presente e pouco para o futuro.

Olhar para o passado tem algum valor, se for para nos lembrarmos do que Deus fez por nós. De outra forma, precisamos seguir o exemplo de Paulo: “esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão” (Filipenses 3:13). Dê uma olhada no versículo 5 e observe as palavras “ainda o louvarei”. O salmista via esperança no futuro! Qual é o remédio para a depressão? Lembre-se de que o filho de Deus tem recursos que o mundo não tem. Podemos fazer muitas coisas para achar alívio temporário19 , mas para o cristão o remédio definitivo é confiar em Deus. Vejamos o versículo 5:

Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu.

 ”Por que estás abatida, ó minha alma?” significa literalmente: “Por que estás prostrado ao chão?” O quadro é de um homem esmagado por um fardo pesado demais para ele suportar. “Por que te perturbas dentro de mim?” significa literalmente: “Por que estás soltando um bramido de lamento dentro de mim?” A referência é ao tumulto interior de alguém que se sente aturdido pela vida. A implicação da palavra “por que” é que o salmista reconhecia que não deveria estar prostrado ao chão, não deveria estar cheio de confusão interior.

O salmista estava desenvolvendo um tipo de conversa franca consigo mesmo. Eu sempre faço isso. (”Pare de sentir pena de si mesmo, Roper, e saia dessa!”) A mensagem do salmista para si mesmo era: “Pare de ser depressivo e comece a esperar em Deus!” A esperança dele não residia em si mesmo, nem nos outros, nem mesmo em técnicas psicológicas, mas em Deus. Era Deus Quem podia ajudá-lo.

A esperança bíblica não é “um tomara-que-sim”, mas é confiança. O salmista terminou o versículo 5 confiante de que, no final, sua oração seria respondida: “Espera em Deus, pois ainda o louvarei [no templo], a ele, meu auxílio e Deus meu”!

POR QUE FICAMOS DESANIMADOS? (42:6-11)

No versículo 6 o escritor reconheceu seu desânimo: “Sinto abatida dentro de mim a mi- nha alma” (v. 6a). No versículo anterior, ele perguntou: “Por que estás abatida, ó minha alma?”, o que implica que ele não deveria estar abatido. Agora ele estava dizendo: “O fato é que minha alma está abatida dentro de mim”. A razão para ele afirmar isso novamente era que estava longe de Jerusalém. “Lembro-me, portanto, de ti, nas terras do Jordão, e no monte Hermom, e no outeiro de Mizar” (v. 6b). Como afirmamos antes, essa região ficava bem no norte da Palestina. “As terras do Jordão” referia-se ou

à nascente do rio Jordão ou à região leste dele. O monte Hermom localizava-se no extremo norte da Palestina. Não temos certeza de onde ficava o outeiro de Mizar, mas deveria estar nas cercanias gerais do monte Hermom20 .

A região citada era cheia de riachos impetuosos. Na primavera, quando os viajantes partiam para Jerusalém, a neve derretida dava origem a cachoeiras cujas águas deslizavam pelas encostas da montanha, enchendo os desfiladeiros de um barulho estridente. Essa cena evocou as palavras do versículo 7: “Um abismo chama outro abismo [i.e., o barulho das águas profundas ecoa para trás e para frente], ao fragor das tuas catadupas [i.e., cachoeiras]; todas as tuas ondas e vagas [i.e., onda de arrebentação] passaram sobre mim”21 .

O salmista estava falando com Deus. Ele chamou suas tribulações de catadupas, ondas e vagas de Deus. Em outras palavras, ele disse: “Deus, o fato de o Senhor não ter respondido minha oração está me esmagando. Sinto-me como se estivesse afundando!”

Imediatamente, porém, temos outra expressão de confiança no versículo 8. O escritor estava relutando com a fé. Ele parece estar dizendo: “Por um lado, estou oprimido por tribulações… mas, por outro lado, sei de fato que Deus não me desamparará”. Ele oscilava entre a escuridão do desespero e a claridade da fé.

O versículo 8 diz: “Contudo, o Senhor, durante o dia, me concede a sua misericórdia, e à noite comigo está o seu cântico, uma oração ao Deus da minha vida”. A expressão “o Senhor me concede a sua misericórdia” declara que Deus ainda está no controle - e Ele pode fazer as coisas se endireitarem assim que quiser. A referência a “dia” e “noite” é uma afirmação de que Deus está no controle a todo tempo.

No versículo seguinte temos novamente um lamento. O versículo 9 começa dizendo: “Digo a Deus, minha rocha…” A palavra hebraica traduzida por “rocha” significa “um rochedo elevado”, um que poderia estar acima das águas que desciam as encostas, descritas no versículo 7. Quando as ondas e os vagalhões arrebentavam sobre ele, o salmista subia em cima da rocha, cheio de dúvidas. Ele erguia a face para o alto e clamava: “…por que te olvidaste [i.e., esqueceste] de mim? Por que hei de andar eu lamentando22 sob a opressão dos meus inimigos?” (v. 9b). O escritor continuava clamando: “Por quê?”: “Por que Deus deixava aquela situação insuportável continuar? Por quê? Por quê?”

O versículo 10 é particularmente doloroso: “Esmigalham-se-me os ossos, quando os meus adversários me insultam, dizendo e dizendo: O teu Deus, onde está?”. A ERC diz: “Como com (heb. com espada ou esmagamento) ferida mor- tal em meus ossos, me afrontam os meus adversários…” O quadro é do soldado que cai ferido, com o corpo mutilado, todos os ossos quebrados, quase desfalecendo, cercado de inimigos que caçoam da situação.

Essa cena me traz à memória uma ocasião em que eu jogava uma variação de beisebol, num acampamento de férias. O campo era todo escarpado e pedras serviam para marcar as bases. Acertei a bola, lançando-a para mais longe que o normal. Comecei a correr pelas bases, enquanto os espectadores gritavam. Quando pisei na pedra que servia de terceira base, olhei para ver onde a bola estava. A combinação da minha força, a posição contorcida do meu corpo, meu peso e a superfície escorregadia da pedra torceram meu pé esquerdo completamente. Eu me firmei for- mando um ângulo reto com a perna, me apoiando somente na pele e nos tendões rompidos. Quando caí, bati e quebrei os ossos da perna na pedra. Enquanto estava ali deitado me retorcendo no chão, fui instantaneamente cercado por outros acampantes e monitores preocupados comigo. Os ferimentos já eram demais para mim naquela circunstância. Mas como seria se um grupo de pessoas sarcásticas me cercasse, dizendo: “Onde está o seu Deus agora? Por que Ele deixou que isso acontecesse com você?” Meu coração se compadece do salmista, quando o visualizo experimentando essa dor.

É óbvio que o salmista estava ofendido; completamente desanimado. Perguntamos: “Por quê?”: “Por que o salmista estava desanimado?” Ao analisarmos as palavras dele, parece óbvio que ele estava olhando demais para os problemas e muito pouco para as promessas.

Salmos 42 e 43 estão repletos de indagações. Os inimigos do escritor perguntaram: “Onde?” (42:3, 10). O salmista perguntou: ”Quando?” (42:2). Em especial, ele perguntou: “Por quê?” Dez vezes em dezesseis versículos ele perguntou: “Por quê?” (42:5, 9, 11; 43:2, 5)23 . Dez vezes ele fez essa pergunta sem haver um indício de que Deus tenha respondido.

Parece natural querermos saber “por que”24 . Todavia, responder essa pergunta raramente traz conforto. No segundo trimestre de 1991, meu pai se encontrava no hospital para uma cirurgia do coração; foram necessárias cinco pontes safenas. A cirurgia do coração correu bem, mas meu pai desenvolveu uma infecção causada pela bactéria estafilococo. A internação dele se estendeu para oito semanas. Ele desenvolveu um tipo de psicose e quase morreu; por duas vezes eu lhe disse “adeus” em meu coração. O fato de saber por que ele estava travando uma luta entre a vida e a morte não nos trazia conforto. Um dia, porém, o médico disse que achava que ele já tinha superado o pior, e começou a falar da recuperação dele. Aquilo sim nos trouxe alívio.

Era uma promessa que nos dava esperança! Quando um filho de Deus fica desanimado, uma parte essencial da recuperação é olhar para as promessas de Deus.

Vários vislumbres das promessas de Deus para o salmista aparecem em Salmos 42 e 43:

1) Deus satisfaria os anseios de sua alma (42:1, 2);

2) Deus estaria com ele (42:5); 

3) Deus faria tudo  acabar  bem  no  final  (42:5,  11;  43:5);

4) Deus continuaria amando o salmista (42:8) e

5) Deus lhe faria justiça e castigaria seus inimigos (43:1).

O salmista sabia dessas verdades no íntimo de seu coração, de modo que novamente fez uma pausa para mais uma conversa consigo mesmo:

Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu (v. 11).

As últimas palavras desse versículo são, no texto original, sutilmente diferentes das palavras do versículo 5. Aqui o salmista falou de Deus como “meu auxílio”. A ERC tem: “a salvação [ou a saúde] da minha face”. A fé em Deus melhora a nossa aparência! Não, ela não vai diminuir o seu nariz, nem eliminar as rugas, mas vai estampar um sorriso no seu rosto - e isso melhoraria a aparência de qualquer um de nós!

POR QUE FICAMOS DESALENTADOS? (43:1-5)

Salmos 43 dá continuidade aos pensamentos de Salmos 42. Salmos 43 começa com as palavras: “Faze-me justiça, ó Deus, e pleiteia a minha causa contra a nação contenciosa25 ” (v. 1a). O primeiro versículo de Salmos 43 descreve uma cena típica de tribunal. O salmista estava dizendo: “Meus inimigos fizeram acusações contra mim, e eu não posso responder a eles! Ponho-me nas Suas mãos, ó Deus. Faça-me justiça!”

Então, ele escreveu: “…livra-me do homem fraudulento e injusto” (v. 1b). Não temos certe- za se isso se referia a um indivíduo específico que havia causado sofrimento a Davi26 , ou se o singular foi usado referindo-se a todos os inimigos. De qualquer modo, ele rogava por livramento.

“Pois tu és o Deus da minha fortaleza”, disse ele (v. 2a). Então, temos os mesmos lamentos de 42:9: “Por que te olvidaste de mim? Por que hei de andar eu lamentando sob a opressão dos meus inimigos?” Ele não conseguia entender por que Deus não o ajudava.

A seguir, Davi fez um apelo fervoroso para que Deus o ajudasse a voltar para Jerusalém para adorá-lo: “Envia a tua luz e a tua verdade, para que me guiem e me levem ao teu santo monte e aos teus tabernáculos” (v. 3). A luz de Deus e a verdade de Deus são personificadas como mensageiras de Deus. O salmista implorou que Deus mandasse a Sua luz e a Sua verdade o guiarem até Jerusalém, onde ele poderia adorar novamente. “O teu santo monte” refere- se ao monte Sião e “os teus tabernáculos”, ao tabernáculo ou templo27 . O escritor estava com saudades da casa de Deus.

No versículo 4 o salmista antecipou a emoção de estar novamente em Jerusalém: “Então, irei ao altar de Deus, de Deus, que é a minha grande alegria; ao som da harpa eu te louvarei, ó Deus, Deus meu”. Como um raio de sol, a empolgação deste versículo quebra a melancolia que permeia grande parte do poema. O autor amava adorar a Deus com a assembléia dos santos!

O salmista não pensava que o único lugar em que Deus podia ser encontrado era Jerusalém, nem acreditava que só podia adorar coletivamente ou no culto congregacional dos dias festivos. Estes dois salmos são provas suficientes de que o escritor sabia que poderia ir à presença de Deus em oração, em qualquer momento e lugar. Apesar disso, ele sabia que os dias santos prescritos por Deus eram especiais, que se reunir com outros da mesma fé era revigorante e que erguer a voz com outros em louvor a Deus trazia uma alegria que nada mais era capaz de proporcionar.

Se o salmista fosse como algumas pessoas de hoje, ele teria dito: “Não posso estar num culto de adoração público - e daí? Este lugar aqui é um dos mais lindos da Palestina! Vou sentar aqui na grama e olhar para as belas cachoeiras e pensar em Deus”. Hoje Deus ainda tem as Suas horas especiais para ser adorado congregacionalmente e Ele manda que não nos ausentemos por vontade própria (Hebreus 10:25). Será que o nosso desejo de comparecer aos cultos de adoração é tão forte quanto o do escritor de Salmos 42 e 43?

Antes de sairmos do versículo 4, observemos em que termos o salmista descreveu Deus como a fonte e o apoio de toda felicidade e alegria. Vamos dar uma olhada geral nos dois salmos e identificar como o salmista descreveu Deus: “o Deus vivo” (42:2), “o Deus da minha vida” (42:8), “Deus, minha rocha” (42:9), ”Deus meu” (42:11; 43:4, 5), “Deus da minha fortaleza” (43:2), “Deus, que é a minha grande alegria” (43:4). Apesar de sentir-se tão desalentado, a fé do salmista ainda era uma fé poderosa!

Façamos outra pausa para indagar: “Por quê?”: “Por que o salmista estava desalentado?” Olhando para os dois salmos como um todo, respondemos: “Porque ele estava olhando demais para si mesmo e pouco para Deus“. A primeira pessoa é usada cinqüenta e uma vezes em dezesseis versículos. O pronome pessoal “eu” ocorre catorze vezes; “me” e “mim”, dezesseis vezes, e “meu”, “minha”, vinte e uma vezes. Por outro lado, o nome de Deus ocorre somente vinte vezes. Mais do que o dobro das referências feitas a Deus são feitas a si mesmo!

A vida pode ser um espelho em que você só enxerga a si mesmo, e neste caso se sente desamparado - ou a vida pode ser uma janela através da qual você vê Deus e vê que Ele é forte! Os salmos focalizam este pensamento, quando mais uma vez é lançado o refrão:

Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu (v. 5; grifo meu).

Muitos eruditos vêem uma progressão nas três expressões em 42:5; 42:11 e 43:5. Acreditam eles que 42:5 deveria ser lido com saudosismo; 42:11, em tom de desespero e 43:5, de modo vitorioso28 . Os salmos encerram com o pensamento de que Deus “virá em nosso auxílio”. Ele pode colocar um sorriso na nossa face; Ele pode fazer o nosso rosto brilhar!29

CONCLUSÃO

Ao terminarmos este estudo, consideremos outra vez a pergunta proposta três vezes em Salmos 42 e 43: “Por que estás abatida, ó minha alma?” Lembremos que no contexto, o salmista estava indagando: “Por que estou em desespero quando poderia estar esperando - esperando em Deus?” A resposta implícita é: “Estou em desespero porque me deixei levar pelo desespero”.

Não desejo aumentar o sofrimento de ninguém, mas ao analisarmos o tipo de depressão cotidiana (não o tipo que requer tratamento psicológico ou médico, mas o tipo que todos nós experimentamos de vez em quando), o fato é que quando permanecemos deprimidos por um período mais prolongado, isso acontece por que nós mesmos o permitimos. Usando os termos desta lição, diríamos que isso acontece porque:

1) olhamos demais para o passado e o presente e não olhamos o suficiente para o futuro; 2) olha- mos demais para os nossos problemas e não olhamos o suficiente para as promessas de Deus, e 3) por fim, olhamos demais para nós mesmos e muito pouco para Deus.

Da próxima vez que você estiver deprimido, pergunte: “Por que estás abatida, ó minha alma? E por que te perturbas dentro de mim?” Então, responda com fé: “Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu”.

Resta ainda uma pergunta a ser feita: a esperança do salmista de voltar a Jerusalém para adorar se concretizou? Se você acompanhou bem esta reflexão, tem a resposta nas mãos30 . O fato desses dois salmos estarem na Bíblia é uma forte prova de que Deus respondeu as orações dele e permitiu que ele voltasse a Jerusalém para louvar seu Senhor. De outra forma, como esses salmos teriam sido preservados para nós?

Da próxima vez que a vida deixá-lo para baixo, lembre-se do escritor de Salmos 42 e 43 e do fato de que quando ele estava no pior estado de ânimo, Deus o ouviu e ajudou! Que Deus ajude você também!

1 ”Coping with Depression”, Newsweek, 8 de janeiro de 1973, p. 51.

2 Brian O’Reilly, Depressed? Here’s Help (”Deprimido? Aqui Está a Ajuda”), Reader’s Digest, (abril de 1994), p. 151.

3 Substitua pelas estatísticas da região em que você mora. A depressão é um problema de ordem mundial.

The Herald of Truth (”O Arauto da Verdade”) é um programa religioso de rádio e TV.

5 Batsell Barrett Baxter, When Life Tumbles In (”Quando a Vida Desaba”). Grand Rapids, Mich.: Baker Book House, 1974, pp. 35-36.

6 Em alguns manuscritos hebraicos antigos, Salmos 42 e 43 são um único salmo.

7 Se os dois salmos estão obviamente interligados, por que são dois em vez de um só? Não podemos responder essa pergunta com certeza. Talvez após o escritor escrever Salmos 42, ele escreveu uma terceira estrofe como um salmo à parte. Se os dois salmos eram originalmente um, talvez tenham sido divididos para uso na adoração.

8 Coré era bisneto de Levi. Ele pereceu por condenação divina por ter-se rebelado contra Moisés e Arão (Números 16). Seus filhos, porém, não se envolveram na rebelião (Núme- ros 26:11) e seus descendentes perseveraram sendo músicos talentosos na adoração no templo (1 Crônicas 6:18-23; 25).

9 Se o versículo 6 na NTLH estiver corretamente traduzido, o escritor estava no norte da Palestina. Alguns pensam que o escritor estava em outro lugar e estava só se lembrando de um tempo em que estivera naquela região.

10 Observemos que 42:4 refere-se à ”casa de Deus” e 43:3 refere-se ao ”monte santo [ou seja, o monte Sião] de Deus”, ”os tabernáculos de Deus” e o ”altar” de Deus.

11 Alguns identificam o salmista como Ezequias.

12 Charles H. Spurgeon, The Treasury of David, vol. 2, Psalms XXVII to LVI [”O Tesouro de Davi, vol. 2, Salmos XXVII a LVI”]. Londres: Marshall, Morgan & Scott, s.d., p. 270.

13 2 Samuel 17:24. Veja a lição ”Aquilo que o Homem Semear”, em ”Davi - Parte 3″, A Verdade para Hoje.

14 Algumas versões dizem que Davi tocava “harpa”, mas o instrumento na verdade era a lira.

15 Talvez os salmos tenham sido escritos por um levita que viveu na parte norte da Palestina, logo depois do reino ser dividido e Jeroboão ter proibido os seus súditos de irem a Jerusalém (1 Reis 12:28). Talvez tenham sido escritos por um filho de Coré no cativeiro assírio ou babilônico. Talvez tenham sido escritos por um levita juntamente com Davi, em Maanaim, ou por um soldado que estava fora de Jerusalém cumprindo dever militar ou por alguém cuja severa enfermidade o impedia de adorar, etc…

16 Escolhi arbitrariamente esses três “D’s”. Você poderia incluir outros “D’s” como “desamparado”, “desiludido”, “desmotivado”.

17 Veja Jeremias 14:1-6.

18 Êxodo 23:17; 34:23. As três vezes são a Festa da Páscoa, a Festa da Sega (conhecida como Pentecostes no Novo Testamento) e a Festa da Colheita.

19 Não é necessário depreciarmos qualquer coisa que traga alívio. Muitos livros bons podem ser úteis para os que sofrem de depressão crônica, mas a solução mais importante para o desânimo é aprender a confiar em Deus.

20 Talvez fosse um pico da mesma cadeia de montanhas. O nome significa “pequeno” ou “insignificante”.

21 Jonas usou as mesmas palavras (Jonas 2:3).

22 As palavras traduzidas por “andar lamentando” significam literalmente “vestir-se de preto”, em outras palavras, estar em traje de luto.

23 No texto original, “por que” aparece nove vezes. O termo é substituído por outro no final de 42:5, mas é subentendido pelo contexto.

24 Eu mesmo faço a pergunta muitas vezes nesta lição.

25 ”Nação” é tradução de goy, a palavra hebraica comum para “gentio”.

26 Se Davi é o autor, isso podia se referir a Aitofel (veja 2 Samuel 15:31; 16:23; Salmos 41:9). É duvidoso que Davi falasse de seu amado Absalão nestes termos.

27 O plural “tabernáculos” pode se referir às várias construções e pátios que constituíam o templo e a área do templo - ou pode ser uma prova adicional de que Davi escreveu o salmo. Nos dias de Davi havia dois lugares de habitação para Deus, um em Gibeão (o tabernáculo) e outro em Jerusalém (a tenda que abrigava a arca da aliança).

28 Numa pregação, talvez você queira voltar e ler esses trechos em voz alta.

29 Isto nos faz lembrar as belas palavras da bênção em Números 6:24-26.

30 Em outras palavras, a resposta está na sua Bíblia.

Citações

“O homem que tem esperança vê sucesso onde outros vêem fracasso e luz do sol, onde outros vêem sombras e tempestade.”

O. S. Marden

“Nossas almas, ó Deus, foram feitas para Ti e jamais descansarão enquanto não descansarem em Ti.”

Agostinho

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    cristina
    Escreveu:

    quero enviar para eu estudar e responder


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    sergio vinhas
    Escreveu:

    gostaria de receber em meu email este estudo.

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