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A Minha Alma Te Ama, Ó Senhor - Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco



O amor a Deus é o pressuposto e a essência da disciplina da vida cristã.

INTRODUÇÃO

- Ao estudarmos as disciplinas da vida cristã, não temos por onde começar senão pelo amor a Deus. Sem amor, não se pode estabelecer qualquer relacionamento com Deus e, portanto, não há como se construir uma vida cristã disciplinada.

- O relacionamento entre Deus e o homem resume-se no amor. Quem não ama, não tem vida espiritual e, portanto, não pode nem sequer pensar em ter uma vida disciplinada.

I - O AMOR COMO PRESSUPOSTO DA VIDA ESPIRITUAL

 

Colaboração/gráfico: Enomir Santos

- Vimos na primeira lição deste trimestre que a “disciplina” é o resultado de um aprendizado que o homem tem em relação a Deus. O ser humano, quando resolve se relacionar com o seu Criador, descobre que Este lhe é superior e que, portanto, tem o direito e o poder de estabelecer regras, de construir uma maneira de viver, que é, precisamente, o que constitui a “disciplina”.

- No entanto, esta “disciplina” não pode ser entendida tão somente como observância de um conjunto de mandamentos, regras e procedimentos, apenas como um regulamento. Se se entender a “disciplina” tão somente sob este aspecto externo, cairemos no grande erro do povo de Israel, que foi o formalismo, o legalismo, a consideração do relacionamento com Deus como algo absolutamente exterior.

- Tal pensamento, tão em voga em nossos dias, resulta numa religiosidade estéril, sem vida, que é abominável ao nosso Deus. Com efeito, vemos que, desde a época dos profetas do Antigo Testamento, o Senhor denunciou esta religiosidade aparente, revelando que, por meio dela, não se constituía qualquer relacionamento com Deus (Is.1:11-18; Jr.6:20; 7:21-24; Am.5:21-27), mesma mensagem apresentada pelo Senhor Jesus, que sempre criticou o formalismo religioso, representado em Seu tempo, pelo farisaísmo então predominante (Mt.23).

- Embora a “disciplina” seja um regulamento a ser observado, não é nas regras que se estabelece o relacionamento entre Deus e os homens. Os mandamentos, as atitudes e as ações devem, sim, adotar a “forma” determinada pelo Senhor, porque não há como Lhe agradarmos senão pela obediência, pelo atendimento a tudo quanto nos tem falado e, mais, da forma como Ele nos tem falado, mas isto é apenas um aspecto, e o menos importante, do que seja a “disciplina”.

- Já quando Se revelou, por meio da lei, ao povo de Israel, o Senhor mostrou qual era o principal fator, a “matéria”, a “essência”, o “conteúdo” do relacionamento que deveria existir entre Deus e o homem.

- Depois que havia libertado Israel do Egito, o Senhor fez a proposta de um pacto com Israel, apresentando como prova de Sua fidelidade a própria libertação que dera aos israelitas (Ex.19:4). Deus, assim, demonstrou ao Seu povo que tomara a iniciativa na proposta de relacionamento. E por que o Senhor fizera isto? A resposta encontramos na própria chamada de Moisés. Deus, ao chamar este grande homem de Deus, disse que era o Deus de Abraão, Isaque e Jacó e que havia visto atentamente a aflição do povoe ouvido o seu clamor, porque havia conhecido as suas dores e, então, descera para livrá-lo, porque vira a opressão dos egípcios sobre os hebreus (Ex.3:6-9).

- Ao dizer que era o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, o Senhor demonstrava bem qual era a razão de ter libertado Israel do Egito: o amor. Por quê? Porque chamou Abraão porque o havia amado, tanto que Abraão é chamado nas Escrituras de “o amigo de Deus” (Is.41:8), ou seja, Abraão foi amado pelo Senhor e, por causa deste amor, Deus Se movimentou para salvar o povo do Egito. Mas, além de ser “amigo” de Abraão, Deus, também, amou a Jacó (Ml.1:2; Rm.9:13). Tem-se, pois, que a origem de toda a obra que Deus fez em favor de Israel e que O levou a propor um pacto com aquela gente foi o amor.

- Não é de se admirar que, ao serem pronunciados os dez mandamentos, a base do pacto firmado entre Deus e Israel, o Senhor tenha, em primeiro lugar, lembrado o povo o Seu ato de amor ao livrá-lo do Egito, tenha determinado a adoração a Ele como o primeiro e maior mandamento, tenha proibido, em seguida, a feitura de imagens de escultura, lembrando que isto se dava porque era Ele um Deus justo e misericordioso, que fazia misericórdia aos que O amassem e guardassem os Seus mandamentos (Ex.20:6).

- Vemos, pois, claramente, que a base de toda a obediência à lei de Moisés estava no amor: o amor de Deus, que havia levado o Senhor a livrar o povo do Egito e no amor a Deus, que o povo de Israel deveria ter, pois só amando ao Senhor conseguiria guardar os Seus mandamentos. Por isso, o primeiro e maior mandamento da lei outro não é senão o amor: “Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu poder” (Dt.6:5). Quem diz ser este o maior mandamento da lei é o próprio Senhor Jesus (Mt.22:36-38).

- Ao estabelecer o relacionamento direto com um povo que queria fosse sacerdotal e Sua propriedade peculiar dentre os povos, o Senhor estabeleceu que a base de tal relacionamento era o amor. Era com base no amor que haveria vida, pois a observância dos mandamentos trazia vida para o povo de Israel (Lv.18:5; Dt.4:1; 5:33; 8:1).

- Na nova aliança estabelecida por Jesus Cristo, pela Sua graça, não temos situação diferente. A base desta nova aliança é, também, o amor de Deus. Aliás, nesta nova aliança, as “sombras” do tempo antigo se dissiparam e podemos agora tudo conhecer, tudo enxergar e, por causa disto, chegamos à constatação que Deus é amor (I Jo.4:8 “in fine”).

- Ao descobrirmos que Deus é amor, entendemos perfeitamente que não há qualquer possibilidade de um relacionamento com Deus senão através do amor, que é a própria “essência”, o próprio “conteúdo” de Deus. Assim, para que possamos estabelecer um relacionamento com o Senhor, temos, necessariamente, de receber o amor de Deus, que é derramado em nós pelo Espírito Santo (Rm.5:5), no exato instante em que aceitamos a Jesus como único e suficiente Senhor e Salvador de nossas vidas, pois o Senhor Jesus é a evidência máxima do amor de Deus (Jo.3:16).

- Ter a vida, explica-nos o apóstolo João na sua primeira carta (I Jo.1:1-2:11), é ter comunhão com Deus, com as Pessoas divinas. Ora, tal comunhão é manifestada pelo fato de que andamos na luz, de que não mais pecamos, não porque não sejamos pecadores, mas porque fomos purificados pelo sangue de Jesus. Por isso, passamos a conhecer a Deus e, como resultado disto, guardamos os Seus mandamentos. Mas como é possível guardar os mandamentos ? Por uma simples razão: porque temos o amor de Deus que está em Jesus Cristo (I Jo.2:5). É este amor que nos faz andar como Jesus andou (I Jo.2:6).

- O apóstolo Paulo afirma que Deus provou o Seu amor para conosco pela morte de Jesus por nós (Rm.5:8), a iniciativa divina que, como vimos, foi tomada em relação a Israel, aqui uma vez mais se reproduz e, por isso, João nos diz que nós amamos a Deus porque Ele nos amou primeiro (I Jo.4:19). O amor a Deus, pois, é uma reação do amor de Deus, amor que não é mero sentimento, mas um comportamento decidido, demonstrado, comprovado.

- Diante do comportamento divino apresentado a nós, uma conduta de amor, temos que, se quisermos ter um relacionamento com Deus, devemos ter a mesma atitude, as mesmas ações, ou seja, também devemos amar. Por isso, o Senhor Jesus trouxe o novo mandamento: “amai uns aos outros assim como Eu vos amei” (Jo.15:12). Este mandamento, a síntese da lei e dos profetas, cumprida na vida terrena de Jesus, é a base de toda e qualquer disciplina da vida cristã.

- Guardar os mandamentos do Senhor, seguir aquilo que Ele tem determinado na Sua Palavra só é possível para quem ama a Deus.”Quem não Me ama, não guarda as Minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é Minha, mas do Pai que Me enviou” (Jo.14:24), disse o Senhor Jesus, não deixando qualquer margem de dúvida de que o amor é essencial para que se tenha uma verdadeira e genuína vida espiritual. É nisto que consiste a “piedade”.

OBS: “…Chamo piedade à reverência associada com o amor de Deus que nos faculta o conhecimento de seus benefícios. Pois, até que os homens sintam que tudo devem a Deus, que são assistidos por seu paternal cuidado, que é ele o autor de todas as coisas boas, daí nada se deve buscar fora dele, jamais se lhe sujeitarão em obediência voluntária. Mais ainda: a não ser que ponham nele sua plena felicidade, verdadeiramente e de coração nunca se lhe renderão por inteiro….” (CALVINO, João. As institutas ou tratado da religião cristã. Trad. de Waldyr Carvalho Luz.  2.ed. v.1, p.51)

- Se a nossa comunhão é com o Pai e com o Seu Filho Jesus Cristo (I Jo.1:3), temos que não se pode construir uma unidade com Deus, uma vida com o Senhor (porque vida é comunhão, o contrário de morte, que é separação) sem que se tenha amor. “Se alguém Me ama, guardará a Minha palavra, e Meu Pai o amará, e viremos para Ele, e faremos nele morada” (Jo.14:23). Somente nos tornaremos um com o Pai e com o Filho (Jo.17:21), se amarmos ao Senhor. “Aquele que não ama, não conhece a Deus” (I Jo.4:8a). “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os Seus mandamentos, e os Seus mandamentos não são pesados” (I Jo.5:3).

- Amar a Deus significa, pois, pôr a Deus em primeiro lugar na vida, conscientizar-se de que nada é mais valioso do que ter comunhão com o Senhor, de que nada neste mundo vale mais do que sermos do Senhor e o Senhor estar em nós.

- No primeiro e grande mandamento, é dito que devemos amar a Deus de todo o coração e de toda a alma. Como se sabe, “coração” aqui simboliza o espírito que, com a alma, formam o homem interior. O amor a Deus deve provir do nosso âmago, do interior do nosso ser. Por isso, a religiosidade exterior nada significa para Deus e Lhe é abominável, porque o amor a Deus, que é o pressuposto do cumprimento dos mandamentos, tem de ter sua origem no coração, no ser interior. É uma atitude de nossa individualidade, de nossa alma que põe todo o seu querer, todo o seu entendimento e todos os seus sentimentos à disposição do Senhor, com o único propósito e objetivo de agradar a Deus, de fazer aquilo que o Senhor sente, pensa e quer.

OBS: “…Amor a Deus e amor ao próximo são inseparáveis, constituem um único mandamento. Mas, ambos vivem do amor preveniente com que Deus nos amou primeiro. Deste modo, já não se trata de um « mandamento » que do exterior nos impõe o impossível, mas de uma experiência do amor proporcionada do interior, um amor que, por sua natureza, deve ser ulteriormente comunicado aos outros. O amor cresce através do amor. O amor é « divino », porque vem de Deus e nos une a Deus, e, através deste processo unificador, transforma-nos em um Nós, que supera as nossas divisões e nos faz ser um só, até que, no fim, Deus seja « tudo em todos » (1 Cor 15, 28)….” (BENTO XVI. Deus caritas est, n. 18. Disponível em: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20051225_deus-caritas-est_po.html Acesso em 12 fev. 2008).

- Esta atitude é o início de nosso amor a Deus, é a renúncia de si mesmo, a auto-negação de que nos fala Jesus. É por este motivo que muitos, em nossos dias, embora até se digam membros de igrejas, não servem a Deus, não segue a Jesus. Em seus corações, eles não aceitam mortificar sua vontade, intelecto e sensibilidade em prol da vontade do Senhor. Consideram que atender àquilo que o Senhor lhes propõe é algo extremamente difícil, é um fardo pesado e, em virtude disto, preferem amar a si próprios, atender aos seus próprios objetivos, propósitos. Estes objetivos e propósitos são os estabelecimentos pela natureza pecaminosa, pelo “eu”, pela carne e é neste sentido que as Escrituras afirmam que se tratam de pessoas que amaram o mundo e, assim, o amor de Deus não está neles (I Jo.2:15).

- Muitos sedizentes crentes andam, na atualidade, criticando a tudo e a todos. Rebelam-se contra os “atrasados”, os “antiquados”, os “retrógrados”, os “conservadores”, os “fanáticos”. Exigem uma “contextualização do evangelho”, uma “modernização”, uma “atualização”.  Dizem que é chegado o momento de uma “nova reforma”, do “fim do legalismo” e tantas coisas mais. Aderem, com veemência e entusiasmo às “novidades”, às “novas unções”, “novas revelações”. Mas, tudo o que falam, defendem ou lutam nada mais é que resultado de sua falta de amor a Deus. Não amam a Deus, não querem entregar seu coração ao Senhor, querem manter a sua própria vontade, sentimentos e pensamentos. Simplesmente não amam a Deus e, por isso, todo e qualquer mandamento lhes é pesado. Dizem-se crentes, mas são, verdadeiramente, pessoas que se desgarraram do povo de Deus (se é que alguma vez foram convertidos) e que, tal qual Demas, amaram o presente século (II Tm.4:10).

- O amor a Deus deve ser, também, “de todo o teu poder”, ou, como diz a Nova Versão Internacional, “de todas as tuas forças”. O amor deve ser integral, abranger todos os aspectos de nossa vida, feito com o máximo de nossas habilidades e capacidades, que é o sentido trazido pela palavra hebraica “m’od” (???). O amor a Deus implica na renúncia de nós mesmos, na aceitação da nossa cruz e no seguir incondicional e perseverante até o fim.

- O amor a Deus não se revela num sentimento, numa “paixão”. Há, na atualidade, muitos que se dizem “apaixonados por Jesus” e devem sê-lo mesmo, pois a “paixão” é algo passageiro, temporário, que não se sustenta. A paixão nasce na carne e, como tudo relacionado ao mundo e à sua concupiscência, passa (I Jo.2:17). Mas o verdadeiro amor a Deus é fazer a vontade do Senhor e este, permanece para sempre.

- Amar a Deus é guardar os mandamentos do Senhor e fazê-lo com alegria, sem constrangimento, de boa vontade. Quem ama a Deus sabe que o fardo de Jesus é leve e o Seu jugo, suave (Mt.11:30). Os mandamentos de Deus, para quem O ama, não são pesados (I Jo.5:3). Muitos sofrem grandemente porque têm de cumprir a Palavra de Deus. Muitos se queixam da “dureza de ser crente”, das “grandes dificuldades em servir a Deus”, mas todo este sofrimento, todos estes obstáculos intransponíveis nada mais revelam senão falta de amor a Deus. Quem ama a Deus não considera os mandamentos pesados, pois o amor “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (I Co.13:7).

- O amor a Deus é um comportamento, uma conduta e, como tal, um conjunto de atitudes e ações que, a partir do momento da salvação, passa a caracterizar cada vez mais o cristão. Os estudiosos judeus salientam que na expressão “O Senhor é o único Deus” (Dt.6:4 “in fine”), em hebraico, “…a última letra da primeira palavra e a última letra da última palavra se acham escritas na Torá com letras grandes. O exegeta Baal Haturim sugere que estas duas letras componham a palavra Ed (??), que significa testemunho….” (MELAMED, Meir Matzliah. Torá: a lei de Moisés, nota a Dt. 6:4, p.525). O amor a Deus, como se vê, mostra-se aos homens através do nosso testemunho, da guarda dos mandamentos do Senhor.

- Não é por outro motivo que o apóstolo Paulo, ao término de sua vida terrena, ao mesmo tempo em que salientava que havia combatido o bom combate, acabado a carreira e guardado a fé, fez questão de mostrar que tudo isto só lhe fora possível porque havia amado a vinda do Senhor (II Tm.4:8), ou seja, o elemento que dirigiu todo o testemunho exemplar do apóstolo, fazendo-o perseverar até o fim, era o amor que nutria ao Senhor e, por conseguinte, à Sua vinda. Por isso, o coro da Igreja e do Espírito é “Vem”(Ap.22:17).

II - O AMOR A DEUS LEVA-NOS A QUERER NOS APROXIMAR DO SENHOR

 

Colaboração/gráfico: Jair César

- O amor a Deus, portanto, é o elemento que nos faz servir a Deus. Ele vem antes de toda e qualquer obediência a um mandamento divino e, por isso, dizemos que ele é o “pressuposto” da disciplina. Mas, também, no instante em que obedecemos a Deus, também temos de fazê-lo por uma decisão que venha do âmago de nosso ser, algo que provenha do coração e da alma e que seja feita com todas as nossas forças, e por isso é que dizemos que o amor é, também, o elemento essencial, fundamental de toda e qualquer disciplina da vida cristã.

- Mas, se amamos a Deus, se queremos agradar-Lhe, isto faz com que desejemos sempre estar próximos dEle. O amor, embora não seja uma “paixão”, uma simples “atração”, tem também o poder de atrair, de aproximar, de nos levar em busca da pessoa amada. Isto vemos na própria expressão do amor de Deus. Quando se diz que Deus amou o mundo de tal maneira, é dito que, em função deste amor, Ele nos deu o Seu Filho Unigênito. O amor de Deus O impulsionou a dar o Filho Unigênito, a fazer com que Ele Se aproximasse de nós. O amor de Deus O levou a “habitar entre nós” (Jo.1:14).

- Costumamos associar a atração à “paixão”, ao “amor carnal”, que, no grego, é representado pela palavra “eros” (????). No entanto, é preciso reconhecer que não é apenas a “paixão” que desperta atração, mas que o amor de Deus, também, tem um poder atraente. Jesus, mesmo, disse que atrairia todos a Ele (Jo.12:32) e, embora esta expressão dEle tenha a ver com o tipo de morte que sofreria, não podemos nos esquecer que é o mesmo verbo grego “elkuo” (?????) que é utilizado em Jo.6:44, quando diz que o Pai “traz” ao Filho aquele que vem a Jesus.

- Há, sim, um poder de atração no amor de Deus, esta atração que nos impele a servi-lO a cada dia, que nos faz sentir “sede de Deus”, como já afirmava o salmista no Sl.42:2, sede esta que temos de ter em relação a Jesus (Jo.4:13-15; 7:37). A “sede de Deus”, ou seja, esta ânsia, esta necessidade de se chegar à presença do Senhor para que se possa viver é o poder atraente decorrente do amor de Deus, é a força que nos faz buscá-lO cada vez mais intensamente.

OBS: Por sua pertinência e biblicidade, transcrevemos aqui trecho da encíclica “Deus caritas est” (Deus é amor) do chefe da Igreja Romana, Bento XVI, que salienta a necessidade de compreendermos o lado “atraente” do amor de Deus: “…No debate filosófico e teológico, estas distinções foram muitas vezes radicalizadas até ao ponto de as colocar em contraposição: tipicamente cristão seria o amor descendente, oblativo, ou seja, a agape; ao invés, a cultura não cristã, especialmente a grega, caracterizar-se-ia pelo amor ascendente, ambicioso e possessivo, ou seja, pelo eros. Se se quisesse levar ao extremo esta antítese, a essência do cristianismo terminaria desarticulada das relações básicas e vitais da existência humana e constituiria um mundo independente, considerado talvez admirável, mas decididamente separado do conjunto da existência humana. Na realidade, eros e agape - amor ascendente e amor descendente - nunca se deixam separar completamente um do outro. Quanto mais os dois encontrarem a justa unidade, embora em distintas dimensões, na única realidade do amor, tanto mais se realiza a verdadeira natureza do amor em geral. Embora o eros seja inicialmente sobretudo ambicioso, ascendente - fascinação pela grande promessa de felicidade - depois, à medida que se aproxima do outro, far-se-á cada vez menos perguntas sobre si próprio, procurará sempre mais a felicidade do outro, preocupar-se-á cada vez mais dele, doar-se-á e desejará « existir para » o outro. Assim se insere nele o momento da agape; caso contrário, o eros decai e perde mesmo a sua própria natureza. Por outro lado, o homem também não pode viver exclusivamente no amor oblativo, descendente. Não pode limitar-se sempre a dar, deve também receber. Quem quer dar amor, deve ele mesmo recebê-lo em dom. Certamente, o homem pode - como nos diz o Senhor - tornar-se uma fonte donde correm rios de água viva (cf. Jo 7, 37-38); mas, para se tornar semelhante fonte, deve ele mesmo beber incessantemente da fonte primeira e originária que é Jesus Cristo, de cujo coração trespassado brota o amor de Deus (cf. Jo 19, 34)….” (BENTO XVI. Deus caritas est, n.7. Disponível em:http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20051225_deus-caritas-est_po.html Acesso em 12 fev. 2008).

- Sem este poder atraente do Senhor em Seu “amor primeiro”, não haveria como nos chegarmos a Ele. Quando Israel estava afastado do Senhor, Deus prometeu, através do profeta Oséias, que iria atraí-lo e levá-lo ao deserto, para ali lhe falar ao coração e restaurá-lo (Os.2:14-23). Esta atração inicial que nos leva ao encontro do Senhor, atração esta que Jesus disse que ocorreria no Calvário (e não apenas fisicamente, mas, espiritualmente, se não formos ao Calvário não temos como receber o amor de Deus em nossos corações), deve persistir ao longo da vida com Deus aqui na Terra.

- A “sede de Deus” que tem de existir em nossos corações é este desejo de termos a companhia do Senhor, é esta necessidade de buscarmos a Sua presença. Por isso, o salmista se alegrava quando lhe diziam para ir à casa do Senhor (Sl.122:1). Naquele tempo, a casa do Senhor era o tabernáculo (o salmo é de Davi, ainda não havia sido construído o templo), onde estava a “habitação de Deus” (Ex.40:34-38). A alegria do salmista revelava, portanto, o desejo de estar diante do Senhor, de se encontrar com Ele, pois a presença de Deus, naqueles dias, ali estava.

- Da mesma maneira, o salmista Asafe dizia não ter no céu senão a Deus e na terra não desejar ninguém senão a Deus (Sl.73:25). O salmista, que quase havia se desviado dos caminhos do Senhor por ter deixado de buscar a presença do Senhor onde Ele estava, isto é, no santuário, agora admitia que não deveria desejar nada mais do que a Deus, tanto no céu quanto na terra. Este desejo de ter a Deus e a mais ninguém é que o levava a se aproximar de Deus e achar isto bom (Sl.73:28).

- Não se busca a Deus se não se sentir atraído por Deus, se não se deixar atrair pelo Senhor, ou seja, se não tiver amor a Deus. O amor a Deus é o único elemento a impulsionar o cristão a ir ao encontro do Senhor. Esta busca de Deus é que constrói a comunhão com o Pai e com o Filho, que estabelece a disciplina da vida com Deus.

- Quando Jesus diz que quem O ama, guarda Seus mandamentos e Ele e o Pai fazem nele morada, está tão somente mostrando que quem se sente atraído por Deus, que responde à ao amor atraente de Deus, tem desejo de buscá-lO e de agradá-lO e, por isso, com satisfação, com alegria, faz tudo quanto o Senhor manda. Não será uma imposição de cima para baixo, um fardo duro de carregar, mas um prazer, um desejo que brota do interior do homem e que vai até a eternidade, a fonte que Jesus disse que nasceria em todo aquele que O aceitasse (Jo.4:14).

- Muitos, na atualidade, não sentem desejo de orar, ler a Bíblia, freqüentar as reuniões da igreja local, contribuir para a obra de Deus. Muitas vezes, fazem tudo isto, mas de má vontade, como uma necessidade, uma obrigação. Assim, em vez de orar, rezam; de ler e meditar na Palavra, passam os olhos desatentamente pelo texto
“lido”; vêm às reuniões mas, enquanto seu corpo está presente, sua mente está há quilômetros dali; contribuem, mas por necessidade, o que transforma aquele gesto em simples gasto. Por quê? Porque não amam a Deus, não têm prazer em buscá-lO, estão longe dEle, como estava Pedro quando da prisão do Senhor, e ali ficarão, a menos que se arrependam de seus pecados e, como o apóstolo, ao perceberem o olhar compassivo do Senhor, chorem amargamente e mudem de vida.

- Já notaram quantos crentes, na atualidade, têm disposição para ficar horas diante da televisão, do computador e não conseguem ficar duas horas numa reunião na igreja local sem olhar para o relógio, impacientando-se com a “demora do culto”? Quantos não “agüentam” orar quinze minutos antes do início do culto, embora fiquem conversando, e nem sempre o que convém, muito mais tempo antes, durante ou após o culto? Tudo isto é sinal da multiplicação da iniqüidade e do esfriamento do amor de “quase todos” (Mt.24:12).

- Para que tenhamos uma vida de disciplina, é preciso que aprendamos com o Senhor. Para aprendermos de Deus, necessário se faz que nos aproximemos dEle. “Chegai-vos a Deus e Ele Se chegará a vós” (Tg.5:8a). Mas a disposição para nos aproximarmos de Deus depende de termos o amor de Deus derramado em nossos corações. É o amor a Deus, é a “sede de Deus” que nos levará ao encontro com Ele, à Sua procura.

- Mas, para que alguém tenha sede, é preciso que sinta falta de água. Sede é carência, “a sensação associada à necessidade de água do organismo”. Tem sede aquele que sente necessidade. Por isso, não há como termos “sede de Deus” e, por conseguinte, buscá-lO, se não nos fizermos “necessitados”, como o salmista (Sl.40:17). Hoje em dia, porém, são muitos os que se acham ricos e que de nada têm falta (Ap.3:17) e é por este motivo que muitos serão vomitados pelo Senhor naquele dia (Ap.3:16).

- Quando se sente necessidade de Deus, imediatamente se atende ao Seu chamado de arrependimento dos pecados e de santificação. Para se chegar a Deus, para nos aproximarmos dEle, é imperioso que sejamos purificados no sangue de Jesus (Ef.2:12-16). Somente pelo perdão dos nossos pecados, entramos em comunhão com Deus (I Jo.1:7). A chegada a Deus exige que limpemos as mãos e purifiquemos os corações do duplo ânimo (Tg.5:8b).

- Enquanto a amada não deixou as coisas desta vida (a cama, a cidade, suas ruas e praças, e os guardas), ela não pôde achar o amado que estava a buscar (Ct.3:1-4). A busca a Deus só será frutífera se confessarmos os nossos pecados, se deles nos arrependermos e decidirmos obedecer somente ao Senhor. Esta é a verdadeira “sede de Deus”, pois “sede”, além de ser reconhecimento de necessidade, é, também, “desejo vivo, ardente”.

- Devemos buscar a Deus enquanto Ele Se pode achar, invocá-lO enquanto está perto (Is.55:6), mas, para tanto, o ímpio tem de deixar os seus caminhos e o homem maligno os seus pensamentos (Is.55:7). Quando do pacto com Israel no Sinai, foi necessário que o povo se santificasse antes que Deus Se apresentasse (Ex.19:10,11) e, agora, nesta nova aliança, se não há mais limites que mantenham o povo longe de Deus (Ex.19:12,13), pois Jesus nos abriu um novo e vivo caminho (Hb.10:19,20), nesta aproximação não se dispensou a necessidade de purificar os nossos corações da má consciência (Hb.10:22).

- A “sede de Deus”, indispensável para que nos aproximemos de Deus e para que estabeleçamos com Ele um relacionamento que nos leve a uma vida disciplinada, sendo, como é, uma expressão legítima do amor de Deus em nossas vidas, exige a santificação, a purificação. Por isso, Jesus disse que o reino de Deus é como o tesouro escondido que, encontrado por alguém, é novamente escondido e o seu descobridor, então, vai, vende tudo quanto tem e adquire o campo, para se apossar do tesouro (Mt.13:44).

- Parece haver um contra-senso nesta parábola, pois, se o homem achou o tesouro, porque escondê-lo novamente? Porque ele percebe que o tesouro é mais valioso do que tudo o que tem e, por isso, desfaz-se de tudo, desprende-se de todas as coisas, para ter apenas ao tesouro. Este homem é o verdadeiro e genuíno cristão, aquele que ama a Deus sobre todas as coisas, com todo o seu coração, a sua alma e o seu poder e, assim, a exemplo de Jesus, que tudo deixou na Sua glória por amor a nós, vende tudo e prefere ficar apenas com o tesouro.

- O amor a Deus é deixar tudo para servir a Jesus. Por isso, Jesus disse que quem ama a sua vida, perdê-la-á, mas quem perder a sua vida, achá-la-á (Mt.10:39; 16:25). Ao proferir estas palavras, Jesus nos mostra que a verdadeira vida, que é a comunhão com Ele, depende do amor a Deus. Sem amor, não há vida, porque sem que se ame a Deus, não se pode estabelecer uma unidade com o Senhor e é na comunhão com Deus que está a vida eterna. Quem, porém, abre mão de sua vontade, de sua “vida”, para fazer a vontade de Deus, encontra a verdadeira vida, que é a comunhão, a unidade com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

- A busca a Deus deve ser feita a partir do nosso interior, é uma busca “de coração”. Esta busca antecede toda a edificação espiritual de um crente. É o que vemos figurado no episódio da construção do templo. Salomão foi o rei que edificou o templo, mas esta edificação foi precedida de uma busca de todo o coração por parte do povo, consoante conclamado por Davi ao povo de Israel (I Cr.22:19). Tal circunstância, aliás, apenas repetia o que já ocorrera quando da construção do tabernáculo, construção esta que somente se tornou possível depois que o povo de Israel, voluntariamente, contribuiu com os materiais necessários para a obra (Ex.35:2-29), voluntariedade tal que foi preciso mandar que o povo deixasse de contribuir (Ex.36:5-7).

- Somente quando se busca de todo o coração é que se encontra a Deus (Jr.29:13). Muitos, como a amada no livro de Cantares, estão buscando ao Senhor, mas não O encontram, porque não deixaram todas as coisas, porque não puderam amar verdadeiramente a Deus. Ama o mundo e o que no mundo há e, por isso, não podem sequer estabelecer um relacionamento com Deus, que dirá ter uma vida cristã disciplinada e frutífera. Se buscarmos a Deus, encontrá-lO-emos, mas se O deixarmos, Ele também nos deixará (II Cr.15:2).

- Muitos se encontram na mesma situação do jovem rico, também chamado de “mancebo de qualidade”. Ele tinha “sede de Deus”, era religioso, possuidor de boas qualidades, mas sabia que nem a sua religiosidade, nem tampouco a sua moral ilibada eram suficientes para saciar a sua “sede de Deus”, a sua necessidade de ter um encontro verdadeiro com o Senhor, de desfrutar a vida eterna, que é, precisamente, esta comunhão com Deus. Foi ao encontro de Jesus, mas dali saiu triste, porque não quis deixar as suas riquezas, porque amava mais as riquezas do que a Deus (Mt.19:16-22; Mc.10:17-22; Lc.18:18-23). Perdeu a salvação, desperdiçou a oportunidade de ter a vida eterna. Por que era rico? Não, pois Deus não faz acepção de pessoas, mas perdeu a salvação porque não amou a Deus.

- Quem quer ter vida, precisa deixar tudo por Jesus, precisa ter “sede de Deus”, buscá-lO com ardor tal que faça com que a razão de ser de sua vida seja o de fazer a vontade do Senhor. Quem assim procede, ama verdadeiramente a Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o seu poder e tem uma só finalidade na vida: buscar a Deus. Nesta busca, por ter tudo deixado, encontra o Senhor e se torna um com Ele, desfrutando a vida eterna desde já.

- Quando Davi desejou edificar uma casa ao Senhor, fê-lo porque percebeu que estava em uma casa de cedros, enquanto a arca de Deus morava dentro de cortinas (II Sm.7:2). Notamos nesta expressão do rei que sua atenção era voltada para Deus, não para o seu reino, reino, aliás, que estava consolidado (II Sm.7:1).

- Davi é chamado na Bíblia de um homem segundo o coração de Deus (I Sm.13:14), precisamente porque tinha a sua atenção voltada para as coisas de Deus. Jesus, também, veio ao mundo para fazer a vontade do Pai, era a sua própria vida, a razão de ser de Sua sobrevivência (Jo.4:34; 6:38). Temos sido imitadores de Cristo neste particular? Temos feito aquilo que é da vontade do Senhor? Temos nossa atenção voltada para as coisas de Deus? Não nos esqueçamos de que, quem ressuscitou com Cristo, está morto para o mundo e não só pensa como busca as coisas que são de cima (Cl.3:1-3).

OBS: Lembramo-nos aqui da inspirada letra do hino 34 do 2º livro do hinário “Coros Sacros”, da autoria de Arthur Lakschevitz, que ora transcrevemos em sua segunda estrofe: “Oh! Quanto desejo melhor Te cantar, com alma humilhada, Jesus, Te adorar. Renego os prazeres da vida de aqui, pois gozo perfeito eu terei só em Ti”. Os hinos que são verdadeiros louvores a Deus refletem este desapego ao mundo, muito diferente dos cantos da atualidade…

- Quão distante estão muitos crentes deste modelo de servo de Deus! Estão completamente envolvidos pelas coisas desta vida, correndo de um lado para o outro, ocupados com o comer, o beber, o vestir, enquanto que as coisas de Deus são deixadas a um plano secundário. São pessoas que não estão a buscar o reino de Deus e a sua justiça, são pessoas que não agem segundo o coração de Deus, que não amam a Deus. Como falar de vida disciplinada para estes que nem sequer vida têm? Será que está é a nossa situação?

- Davi não disse o que desejava fazer, mas o profeta Nata, adiantando-se, sem que fosse essa a vontade de Deus, incentivou-o. O profeta teve de se retratar e o Senhor mandou que dissesse a Davi que ele não construiria o templo, porque Deus nunca havia pedido tal coisa. No entanto, o desejo de Davi se concretizaria, pois, embora Deus nunca o tivesse pedido, o fato é que Se agradara do amor que Davi demonstrara ao Senhor e confirmara o desejo do rei. O templo seria, pois, construído, mas pelo filho de Davi (II Sm.7:3-15).

- Vemos, pois, como o fato de alguém servir a Deus e de fazer a vontade do Senhor não significa, em absoluto, a anulação da pessoa enquanto indivíduo. Muito pelo contrário, embora a pessoa se negue a si mesmo para fazer o que Deus quer, isto não a impede de desejar, de ter vontade, vontade, logicamente, que é levada à aprovação do Senhor. Deus nunca havia pedido uma casa, mas, ante o desejo de Davi, aprova este projeto e diz que o realizaria. Mas, e aí está a importância de se dar atenção às coisas de Deus, além de a vontade poder se concretizar, e isto é o maior poder que um ser humano pode alcançar, pois, aprovado o desejo por Deus, este desejo se realizará inevitavelmente, tem-se que quem busca a Deus, obtém algo muito maior do as coisas passageiras deste mundo: obtém o contato com a eternidade.

- Davi quis construir uma casa a Deus. Deus confirmou seu desejo, embora ele mesmo não a construiria mas, sim, seu filho. Entretanto, por causa deste desejo, Deus dizia a Davi que quem teria casa seria o próprio Davi. Com efeito, Deus, por causa deste amor demonstrado por Davi, promete-lhe uma dinastia eterna, o que se realizou pelo fato de Jesus ser descendente de Davi. Ao buscar as coisas de cima, Davi obteve o privilégio de ser ascendente do Messias, de ser o iniciador da dinastia que traria o Salvador da humanidade. Davi obtinha o contato com a eternidade, numa figura do que nos acontece quando aceitamos a Cristo como Senhor e Salvador de nossas vidas.

- A promessa que o Senhor nos fez foi a vida eterna (I Jo.2:25) e esta vida eterna está em Jesus (I Jo.5:11) e só é obtida se correspondermos ao amor de Deus (Jo.3:16), por meio do nosso amor a Deus, que faz com que aborreçamos o mundo, mas amemos ao Senhor (Jo.12:25; Tg.4:4; I Jo.2:15).

- Quando amamos ao Senhor, deixando tudo o que o mundo nos oferece, buscamos as coisas de cima, o reino de Deus e a sua justiça e, em virtude disto, desfrutamos da vida eterna, passamos a ser um com Deus, a sermos um com o Eterno.

OBS: “…Faz parte da evolução do amor para níveis mais altos, para as suas íntimas purificações, que ele procure agora o caráter definitivo, e isto num duplo sentido: no sentido da exclusividade - « apenas esta única pessoa » - e no sentido de ser « para sempre ». O amor compreende a totalidade da existência em toda a sua dimensão, inclusive a temporal. Nem poderia ser de outro modo, porque a sua promessa visa o definitivo: o amor visa a eternidade. Sim, o amor é « êxtase »; êxtase, não no sentido de um instante de inebriamento, mas como caminho, como êxodo permanente do eu fechado em si mesmo para a sua libertação no dom de si e, precisamente dessa forma, para o reencontro de si mesmo, mais ainda para a descoberta de Deus: « Quem procurar salvaguardar a vida, perdê-la-á, e quem a perder, conservá-la-á » (Lc 17, 33) - disse Jesus; afirmação esta que se encontra nos Evangelhos com diversas variantes (cf. Mt 10, 39; 16, 25; Mc 8, 35; Lc 9, 24; Jo 12, 25). Assim descreve Jesus o seu caminho pessoal, que O conduz, através da cruz, à ressurreição: o caminho do grão de trigo que cai na terra e morre e assim dá muito fruto. Partindo do centro do seu sacrifício pessoal e do amor que aí alcança a sua plenitude, Ele, com tais palavras, descreve também a essência do amor e da existência humana em geral….”(BENTO XVI. Deus caritas est, n.6, end. cit.)

- O apóstolo Pedro diz que, pelas promessas de Deus, fomos feitos participantes da natureza divina (II Pe.1:4). Ora, a primeira e mais importante promessa que o Senhor nos fez foi a vida eterna e, portanto, por ela, fomos feitos participantes da natureza divina. A principal característica da natureza divina é a eternidade, uma qualidade que Lhe é própria e exclusiva, pois só Deus não tem princípio nem fim, tanto que os judeus, ciosos de pronunciar o nome de Deus, chamam-nO sempre de “Eterno”. Para desfrutarmos da vida eterna, para sermos participantes desta eternidade, como vimos com Davi, é absolutamente necessário que amemos a Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o poder.

- Sem que amemos a Deus, portanto, não há como sermos participantes da natureza divina, até porque, como João nos ensina, Deus é amor. Sem que amemos a Deus, não O buscaremos, não desejaremos as coisas de Deus e, por conseguinte, não teremos qualquer prazer em sermos um com o Senhor, em desfrutarmos da vida eterna. Quais têm sido os desejos dos nossos corações?

- Na atualidade, entre os que cristãos se dizem ser, há uma profusão de pregações, sermões, cânticos e reflexões sobre os “sonhos”. Há um estímulo, um incentivo sem igual para que os crentes “sonhem”, “acreditem nos seus sonhos”, “não deixem seus sonhos morrer”. Como nunca se tem pregado a respeito dos sonhos de José e de como eles se realizaram plenamente. Mas toda esta “sonhomania” é mais uma demonstração do esfriamento do amor a Deus. Quando acalentamos nossos sonhos em vez de buscarmos a Deus, quando têm mais importância e nos chama mais a atenção o estímulo e incentivo de nossos sonhos, do que a busca das coisas de Deus, do que o desfrute da eternidade, temos um sinal, uma evidência exuberante de que o amor a Deus está ausente de muitos corações. Em vez de sonharmos ou desejarmos com coisas desta vida, por que não atentarmos para as coisas de Deus, para a salvação tão grandiosa que Jesus nos proporcionou? “Como escaparemos nós se não atentarmos para uma tão grande salvação?” (Hb.2:3a).

- Neste trimestre, o objetivo é termos uma vida cristã disciplinada, submetermo-nos ao que nos tem sido ensinado pelo Senhor para que nossa vida espiritual cresça continuadamente e tenhamos vida em abundância. No entanto, nada disso será proveitoso se não estivermos a amar a Deus, pressuposto e fundamento da disciplina da vida cristã. Amamos a Deus? Temo-lO buscado?

III - O AMOR A DEUS TEM DE SER PERMANENTE

- O amor a Deus resulta de uma atração, como vimos supra, mas não se resume a um encontro fortuito, acidental, nem tampouco a encontros esporádicos ou mesmo periódicos. O amor a Deus não é uma sensação que se tenha em uma reunião, em um determinado instante, como muitos sedizentes crentes têm equivocadamente pensado, mas é um estado permanente, contínuo.

- Muitos chegam a entender que o fato de se ter um poder atraente de Deus junto ao homem, o relacionamento, ao modo dos relacionamentos passionais próprios da humanidade, seja algo fugaz e passageiro. Quando, porém, vemos, por exemplo, a lei da gravitação universal, descoberta por Isaac Newton, segundo a qual “a matéria atrai a matéria na razão direta de suas massas e na razão inversa do quadrado de suas distâncias”, verificamos que, na ordem estabelecida pelo Senhor para o universo físico, a atração não é algo passageiro nem fugaz, mas, bem ao contrário, é algo permanente, que tende a aumentar na medida em que há a aproximação entre dois corpos. Por isso, por exemplo, a Terra, tendo sido atraída pelo Sol, mantém a ele atrelada na seqüência dos séculos e milênios.

- No mundo espiritual não é diferente. A atração efetuada por Deus ao homem não é algo que seja passageiro ou temporário, mas, tendo Deus como fonte, é algo que é eterno e tem de permanecer para sempre. Vemos tal circunstância claramente quando, pela boca do profeta Isaías, o Senhor diz que amou a Israel com “amor eterno”, tendo-o atraído com “amorável benignidade” (Jr.31:3). O amor de Deus, como o próprio Deus, é eterno e, portanto, não tem como cessar. Se o amor de Deus jamais cessa, temos que não há como o nosso amor a Ele, fruto de Sua atração, venha a cessar, já que há uma “atração gravitacional” entre nós e Deus, que está sob o signo da eternidade, muito mais forte do que a existente no universo físico.

- Deus não pára de amar e de, neste amor, de nos atrair para junto dEle. Como Ele é o Senhor, o Ser Supremo, Sua força é inigualável, irresistível e, portanto, se nos deixarmos atrair por Ele e nos aproximarmos dEle, o amor a Ele aumentará cada vez mais, permanecerá em nossos corações, fazendo-nos assim mais e mais semelhantes a Ele, uma vez que Deus é amor.

- Esta atração divina não é feita com base na soberania do Senhor, ou seja, não se trata de uma imposição, que aniquilaria o ser humano, que anularia por completo a sua vontade. Esta atração, como é dito pelo profeta Oséias, é uma “atração com cordas humanas, com cordas de amor” (Os.11:4), ou seja, Deus, respeitando o livre arbítrio do homem, oferece o Seu amor e, em havendo aceitação por parte do homem, mediante o abandono do pecado e a aproximação contínua a Deus, constrói um relacionamento permanente, perfeitamente coerente com a Sua eternidade. Ainda que o homem rejeite a Deus, como ocorreu com Israel (Os.11:5-7), Deus não deixará de amar e de Se manter à disposição para resgatar o homem (Os.11:8,9).

- O amor de Deus é eterno e, portanto, nunca cessa, nunca termina. Deus é Deus e não homem e, por isso, não alterará o propósito que tem em relação ao homem, de oferecer-lhe a salvação na pessoa bendita de Cristo Jesus (Os.11:9). No entanto, o amor a Deus depende da disposição do homem de se manter em comunhão com o Senhor, de permanecer em Cristo, a videira verdadeira (Jo.15:1).

- Jesus deixou isto bem claro ao dizer que a permanência do amor de Deus em nossos corações é demonstrada pela manutenção de nossa comunhão com Ele e, portanto, pela presença de frutificação espiritual em nossas vidas (Jo.15:2). Num processo de contínuo crescimento espiritual, somos convidados a permanecer no amor a Deus, assim como Jesus permaneceu fiel ao Pai durante o Seu ministério terreno (Jo.15:9).

- Vemos, então, o significado profundo do “novo mandamento” de Jesus: devemos amar uns aos outros assim como Ele nos amou (Jo.15:12), ou seja, devemos manter a nossa comunhão com o Senhor, a fim de que frutiquemos espiritualmente, sabendo que o fruto do Espírito Santo são qualidades que demonstram o nosso amor a Deus e, por conseguinte, o nosso amor ao próximo.

- Quem permanece no amor de Deus é discípulo de Jesus (Jo.15:8,9). A permanência no amor de Deus é revelada pela disciplina, ou seja, pela guarda dos mandamentos (Jo.15:10). Quem permanece no amor de Deus não tem prazer nem alegria a não ser em Jesus (Jo.15:11) e, por isso, não se sente atraído senão pelo Senhor e pelas coisas celestiais, não buscando as coisas deste mundo nem nelas tendo prazer ou satisfação.

- Permanecer no amor de Deus é permanecer na Palavra de Deus (Jo.8:31). Por isso, quem permanece no amor de Deus obedece a tudo quanto o Senhor manda nas Escrituras Sagradas, não questiona o texto bíblico, nem procura apresentar subterfúgios ou interpretações que permitam fazer o que bem entende na sua vida. Quem tem o amor de Deus e nele permanece, está liberto dos desejos carnais, das paixões desta vida e tem prazer em simplesmente fazer tudo aquilo que o Senhor tem mandado na Sua Palavra.

- Quando permanecemos no amor de Deus, quando nos ligamos à videira verdadeira e produzimos o fruto esperado pelo Senhor, duas coisas nos acontecem. Em primeiro lugar, passamos a crescer espiritualmente, crescimento que se dá na graça e no conhecimento, num processo que nos torna cada vez mais semelhantes a Jesus, que nos faz aproximar da unidade e do conhecimento do Filho de Deus, a varão perfeito, à medida da estatura completa de Cristo (Ef.4:13). Este processo, não nos iludamos, é, por vezes doloroso, porque nos submetemos à “poda” do Senhor, que nos limpa para que demos cada vez mais fruto (Jo.15:2).

- Em segundo lugar, neste processo de permanência do amor de Deus, atraídos que somos pelo Senhor, passamos a ser repelidos pelo mundo. Quem se constitui em amigo de Deus, torna-se inimigo do mundo e, em virtude de permanecermos no amor de Deus, o mundo passa a nos aborrecer (Jo.15:18,19). Muitos procuram ser simpáticos e agradáveis ao mundo, tentando manter com ele uma trégua, um relacionamento “não me mata que eu não lhe mato”. Tal situação, porém, inexiste no mundo espiritual.  Jesus bem explicou isto, ao afirmar que “quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta espalha” (Mt.12:30). Assim, se o amor de Deus permanece em nós, o mundo nos aborrece e nós o aborrecemos. Se, porém, alguém está em paz com o mundo, este não é de Jesus.

- Entretanto, não temos que temer a oposição do mundo. Embora ela seja forte e impiedosa, o fato é que, se estamos na videira verdadeira, se temos o amor de Deus permanente em nossa vida, isto é porque o Pai nos trouxe a Jesus e há uma rica e preciosa promessa da parte do Senhor: “Tudo o que o Pai Me dá virá a Mim, e o que vem a Mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (Jo.6:37), ou, ainda, “as Minhas ovelhas ouvem a Minha voz, e Eu as conheço, e elas Me seguem;  e dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará das Minhas mãos. Meu Pai, que Mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las das mãos de Meu Pai” (Jo.10:27-29).

- Pelo que vemos, pois, destas palavras do Senhor Jesus, podemos ficar tranqüilos, porque, se temos permanente o amor de Deus em nossas vidas, estamos nas mãos de Jesus e nas mãos do Pai e, portanto, ninguém pode sequer se atrever a nos tirar dali. Se nos mantivermos em comunhão com o Pai e com o Filho, nada nos poderá separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus nosso Senhor (Rm.8:38,39). Mas, temos estado nas mãos do Senhor?

Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco é Presbítero na Assembléia de Deus, Belenzinho - São Paulo, professor de Escola Bíblica Dominical, professor da Faculdade Evangélica de São Paulo (FAESP) e colaborador do Portal Escola Dominical.

Publicado no Portal EscolaDominical

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  1. Eliana Raiol Escreveu:

    A paz do Senhor

    Quero agradecer por este excelente estudo, gostei bastante vou copiar para poder estudar melhor. Que Deus continue lhe abençoando meu querido irmão e o espirito santo inspirando-o para divulgar outras mensagens poderosas.

    Grata

    Eliana Raiol
    Assembleia de Deus-São Luis-MA
    eliraiol@hotmail.com

  2. Eudes Escreveu:

    Como faco para baixar estes hinarios “Coros Sacros” e “Antemas Celestes”

  3. Eudes Escreveu:

    Como faco para baixar estes hinarios “Coros Sacros” e “Antemas Celestes”
    eudes_es@yahoo.com.br

  4. Silvano Escreveu:

    Como faco para baixar estes hinarios “Coros Sacros” e “Antemas Celestes”

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