Sobre a Inerrância da BÃblia
Augustus Nicodemos Lopes
Num post anterior mencionei a inerrância da BÃblia. Por ser um conceito muito mal entendido e muito atacado, acredito que mereça um post explicativo. Como eu sei que não tenho procuração de todos que acreditam na inerrância da BÃblia para falar por eles, vou falar por mim somente.
Creio que a BÃblia foi escrita por autores sobrenaturalmente inspirados por Deus a ponto de ser verdadeira em tudo o que afirma, e isto não somente em matérias de fé e história da salvação. Ela é livre de erros, fraude e enganos. A Escritura não pode errar por ser em sua inteireza a revelação do Deus verdadeiro. Ela não é somente uma testemunha da revelação e nem se torna revelação num encontro existencial. Ela permanece a inerrante Palavra de Deus independentemente da resposta humana.
Estou persuadido de que o sentido básico desse conceito não foi inventado pelo escolasticismo protestante pós Reforma e nem pelos fundamentalistas históricos do inÃcio do séc. XX em reação ao liberalismo teológico. Sei que o termo “inerrante” só apareceu na Igreja a partir dessa última controvérsia. Contudo, para mim, é evidente que o conceito está presente na fé da Igreja desde o seu inÃcio. Apesar disso, não acredito que abraçar a inerrância é essencial para a salvação. Negá-la, todavia, pode eventualmente trazer prejuÃzos para a vida espiritual da igreja, abrindo a porta para males morais e espirituais.
Ao dizer que a BÃblia é inerrante, não estou negando que erros de copistas se introduziram no longo processo de transmissão da mesma. A inerrância é um atributo somente dos autógrafos, ou seja, do texto como originalmente produzido pelos autores inspirados por Deus. Muito embora hoje não tenhamos mais os autógrafos, pela providência divina podemos recuperar seu conteúdo, preservado nas cópias, quase que totalmente, através da ajuda de ferramentas como a baixa crÃtica ou a manuscritologia bÃblica. A ausência dos autógrafos não torna a inerrância bÃblica irrelevante, como dizem alguns. Se não temos os autógrafos para provar que eles não contêm erros, eles também não os têm para provar que contêm. Lembro que o ônus da prova é deles.
Quando digo que a BÃblia é inerrante, não ignoro estudos recentes na área de linguagem que apontam para os ruÃdos inerentes na comunicação, como o desconstrucionismo. Tais dificuldades, contudo, não impedem que o Deus que nos fez à sua imagem e semelhança, e que criou a linguagem, a use como meio claro de sua revelação inerrante, a ponto de nem a cultura e nem a pecaminosidade humana distorcerem o que ele quis de fato nos dizer.
Também não estou dizendo que os autores bÃblicos receberam conhecimento pleno e onisciente acerca do mundo, quando escreveram. Não creio em inspiração mecânica ou em ditado divino que anulou a humanidade dos autores. Eles se expressaram nos termos e dentro do conhecimento disponÃvel em sua época. Assim, eles descrevem que o sol nasce num lado do céu e se põe no outro, ou ainda mencionam que o sol parou no céu (Josué). No livro de LevÃtico se diz que a lebre rumina e que o morcego é uma ave. Sabemos que pelas convenções técnicas atuais lebres não ruminam e morcegos não são aves. Os autores bÃblicos, entretanto, estavam se expressando em linguagem coloquial, fenomenológica, como observadores. E do ponto de vista do observador, o sol de fato se move no céu. E na Antigüidade, todos os animais que mexiam com a boca após comer pareciam ruminantes e tudo que tinha asas e voava era ave!
Sei também que não posso explicar todas as dificuldades da BÃblia em termos absolutamente satisfatórios. Por exemplo, a harmonia dos Evangelhos continua sendo em parte um desafio para autores comprometidos com a inerrância bÃblica, pois nem sempre se consegue achar uma explicação plena (ainda) para alguns dos problemas levantados pelas aparentes discrepâncias entre os Evangelhos e entre Crônicas e Reis. Sei, no entanto, que não posso aceitar soluções que impliquem numa diminuição da autoridade das Escrituras, sugerindo contradições ou erros. Prefiro aguardar até que mais informações nos ajudem a achar soluções compatÃveis com a natureza da Escritura e sua divina origem.
Ao afirmar a inerrância da BÃblia não estou ignorando que, com freqüência, as teorias cientÃficas sobre a história da terra têm sido usadas para desacreditar o relato bÃblico da criação, do dilúvio e sua cosmovisão geocêntrica. Entendo, contudo, que não é correto avaliar a veracidade da BÃblia mediante padrões de verdade que são distintos do seu propósito e que se baseiam em conclusões provisórias, efêmeras e freqüentemente desmentidas a posteriori por outros estudiosos e cientistas. A BÃblia não é um livro cientÃfico, nos padrões modernos, e frequentemente se refere aos fenômenos naturais usando a linguagem descritiva do observador, como já mencionei, a qual não é cientificamente analÃtica.
Por fim, estou consciente de que à s vezes ocorre na BÃblia o que estudiosos modernos chamariam de erros de gramática com base no que se conhece hoje do grego, hebraico e aramaico. Sei que autores bÃblicos citam outras partes da BÃblia de maneira livre, que eles usam números arredondados e que relatam os mesmos eventos de diferentes perspectivas, como no caso dos Evangelhos. Essas coisas, todavia, em nada prejudicam a inerrância da BÃblia. Ela permanece plenamente confiável em tudo que afirma, uma vez que a tomemos em seus próprios termos, sem impor-lhe a camisa de força da visão de mundo moderna, moldada por pressupostos secularizados e anticristãos.
A negação da inerrância da BÃblia é tÃpica da esquerda teológica protestante e católica(*), afetada por uma cosmovisão oriunda das filosofias e ideologias que emergiram do Iluminismo, trazidas ao Brasil por cursos de teologia oferecidos em instituições de ensino públicas ou de denominações não mais comprometidas com os itens da fé cristã histórica. Junto com a negação da inerrância geralmente vem uma postura liberal quanto a casamento, divórcio, aborto, eutanásia, sexo antes do casamento, homossexualismo, etc. Há exceções e quero deixar isso claro, para não fazer generalizações injustas.
Ao terminar esse post, perguntei a mim mesmo se não é teimosia continuar a acreditar na inerrância da BÃblia depois de ter listado tantas dificuldades e feito tantas ressalvas. Quando penso, por outro lado, em todas as dificuldades e ressalvas que a esquerda teológica tem que enfrentar para defender a validade e a relevância para hoje de uma BÃblia que é cheia de erros e contradições, não sendo mais que um mero registro humano da fé de Israel e dos primeiros cristãos eivado de mitos e fábulas, vejo que é mais coerente continuar crendo na inerrância. Aqui permaneço.
NOTA: (*) “Esquerda teológica protestante e católica” é uma expressão que estou testando para ver se pode ser usada adequadamente para descrever os protestantes e católicos neoliberais. Tenho em mente os adeptos da teologia da libertação, que defendem o ecumenismo, aceitam a alta crÃtica bÃblica e se vêm como comissionados a reinventar a Igreja e a teologia para os dias de hoje. Uso o termo “esquerda” emprestado da polÃtica, sem querer identificar os esquerdistas teológicos com esquerdistas polÃticos, em que pese a agenda e a credenda comum a ambos.
Publicado no blog O tempora, O mores!


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