Da Inerrância e Preservação das Escrituras
por Rodrigo Silva BarrosÂ
Eu acabo de ler o livro de Norman Geisler “Introdução BÃblica,” que usei como material complementar ao livro de James Boice “O Alicerce da Autoridade BÃblica.” Em ambas as obras, há uma forte e ortodoxa defesa da Doutrina da Inerrância das Escrituras. Mas aquele que ler atentamente essas obras perceberá um lapso dos autores: a completa ausência da defesa e da exposição da Doutrina da Preservação das Escrituras.
Uma pessoa pouco familiarizada com essa doutrina não tratada cuidadosamente nessas obras, ficará com a incômoda impressão de que a defesa da Doutrina da Inerrância das Escrituras é, no fim, inútil. Pois os autores defendem que a Inerrância das Escrituras limitam-se aos autógrafos, que são os manuscritos originais, e estes, é óbvio, não mais existem. As cópias desses autógrafos, sejam o Texto Massorético (Antigo Testamento), o Majoritário, o Receptus, o CrÃtico ou Alexandrino (Novo Testamento) não são inerrantes. E a não inerrância das cópias individuais das Escrituras é um fato incontestável, haja vista que todos os muitos manuscritos disponÃveis estão incompletos e uns poucos apresentam significativas adulterações. E é justamente esse fato que alguns dos crÃticos textuais da BÃblia, que se apostataram da fé, usam para justificar a sua incredulidade quanto à Verdade Revelada.
Aqueles que usam esse fato para justificar a sua apostasia não compreenderam bem nem o que é inerrância e nem a relação desta doutrina com a promessa bÃblica de preservação das Escrituras. A inerrância das Escrituras é a doutrina que diz que Deus não pode mentir e, assim sendo, tudo o que a Escritura afirma é necessariamente verdadeiro. Isso significa que nem tudo o que está contido nas Escrituras é verdadeiro em si: como exemplo, os engodos de Satanás e o pecado dos cananeus. Mas somente o que ela afirma, i.e., embora os engodos de Satanás sejam falsos ou os pecados dos cananeus sejam horrendos, eles são fatos históricos verdadeiros, que efetivamente ocorreram, porque a BÃblia assim o afirma, porque ela é inerrante.
A inerrância da BÃblia está restrita aos autógrafos originais, pois somente os seus autores receberam a inspiração divina para escrevê-la, o que acarreta em um Cânon limitado. Assim essa doutrina admite que as cópias individuais dos autógrafos podem conter erros e até contradições internas, como, de fato, ocorre. Mas ela não admite que tais contradições ou erros existiam nos autógrafos. É muito importante compreender isso, pois quando o Senhor Jesus prometeu que Sua Lei escrita seria preservada até o fim do mundo, inclusive os sinais de pontuação, Ele não estava falando das cópias individuais da Lei escrita; mas tinha em mente as palavras dos autógrafos. Com essa afirmação do Senhor, podemos dizer indubitavelmente que a inerrância da BÃblia se refere a cada uma de suas palavras, i.e., a inerrância das Escrituras é verbal e plenária.
Mas se o Senhor estava se referindo aos autógrafos e eles não mais existem, como ficamos? Os crÃticos apóstatas não teriam razão em sua incredulidade? É aqui que uma correta compreensão da Doutrina da Preservação de faz necessária.
Ao contrário do que muitos pensam, é um non-sequitur dizer que se o Senhor prometeu preservar as Suas palavras escritas, logo as cópias individuais das Escrituras, ou ao menos as cópias lavradas por homens santos e piedosos, haverão, cada uma, de conter toda a Escritura Sagrada. O que as pessoas à s vezes não percebem, especialmente alguns batistas fundamentalistas, é que as Escrituras podem muito bem estar preservadas no conjunto de manuscritos, citações (nas lÃnguas originais) dos Pais da Igreja Antiga. Para que as Escrituras estejam preservadas não é necessário que um determinado manuscrito esteja completo, com todas as palavras originais. Para tanto, basta que dois ou mais manuscritos incompletos, complementados com as citações exatas dos Pais, tenham todas as palavras dos autógrafos originais.
É necessário entender também que a Doutrina da Preservação das Escrituras é um fato por si mesmo. Sua validade não depende do crÃtico textual lograr em reconstruir o autógrafo, até porque seu trabalho é inerentemente falÃvel. Se as palavras originais estão nos manuscritos que dispomos hoje, e estão, ainda que não a conheçamos todas, elas continuarão lá.
Outro aspecto da Doutrina da Preservação da BÃblia é o interesse que Deus possui em tornar Sua Palavra conhecida aos Seus. É por isso que o trabalho da CrÃtica Textual possui (ou deveria possuir) uma natureza construtiva, pois não pode conceber que uma boa tradução ou transmissão tenha tantos erros que seja absolutamente imprestável. Muito pelo contrário, se as palavras sagradas estão disponÃveis a nós e há um interesse divino que as conheçamos, ainda que não a conheçamos todas pela inerente falibilidade do trabalho do crÃtico, devemos esperar que a quantidade de palavras sob as quais se têm dúvidas será desprezÃvel, como, aliás, os fatos mostram. Assim, a CrÃtica Textual é uma ciência que jamais retrocede (ou não deveria retroceder) como as pesquisas cientÃficas, que constantemente precisam rever os seus trabalhos e tratados do inÃcio. Em seu domÃnio, CrÃtica Textual só necessita aparar pequenos equÃvocos em transmissões e nas traduções legÃtimas do texto sagrado.
Sob esta compreensão da Doutrina da Preservação das Escrituras, nós reformados podemos sem receio nos juntar à Tradição da Igreja que adotou o Parêntese Joanino como parte do Cânon. Esse Parêntese é o famoso trecho trinitário de 1Jo 5:7 que têm sido criminosamente suprimido por crÃticos modernos com os seus textos alexandrinos do Inferno! Como vimos anteriormente, é irrelevante para a Doutrina da Preservação das Escrituras quantos manuscritos apóiam um texto: logicamente, basta que haja uma única citação exata para apoiá-lo. E numerosas citações do Parêntese temos; e alguns poucos manuscritos também temos. Entretanto se os apóstatas fossem pessoas honestas (algo mutuamente excludente), se contentariam com o fato histórico incontestável de que a Velha Latina do século II e a Vulgata do século IV foram traduções em latim de manuscritos gregos que continham esse trecho. A idade dessas traduções, sua proximidade em relação à primeira geração de cristãos e o sucesso que tiveram nas comunidades ortodoxas onde circularam, é prova muito satisfatória da canonicidade de 1Jo 5:7.
Como a Doutrina da Inerrância das Escrituras se refere a cada palavra do Livro Sagrado, infere-se que o único meio legitimo de transmissão ou tradução dos manuscritos para as lÃnguas vernáculas, é a acurácia plena: transmissão palavra-por-palavra e tradução palavra-por-palavra-equivalente. Assim, é devido à Doutrina da Inerrância das Ecrituras e da graciosa providência do Senhor em preservá-las, que 99% das palavras dos autógrafos são indubitavelmente conhecidos, por meio do notável cuidado e escrúpulos dos escribas ao copiá-las, apesar da fraqueza pessoal de alguns crÃticos apóstastas que se recusam a admitir os fatos. Tal percentual de pureza e a natureza insignificante das diferenças, na quantidade imensa de manuscritos disponÃveis (tomando como base o Massorético e o Majoritário), é sem par em relação à s outras obras do mundo Antigo. De modo que os apóstatas são indesculpáveis perante o Pai. Portanto, aqueles que criam traduções-interpretações como as “bÃblias” que apresentam não as palavras dos originais na medida do vernacularmente possÃvel, mas um suposto “pensamento” do autor por trecho; ou ainda aqueles que se prestam a criar paráfrases dos originais, estão cometendo o pecado de Uzá, que merecidamente morreu por seu comportamento irreverente com as coisas do Senhor, tal como registrou o profeta Samuel. Deus lhes dê a devida paga pelos seus pecados.
Resta, para terminar este artigo, fazer um rápido comentário sobre o ruckmanismo. O heresiarca Peter Ruckman, um batista fundamentalista, inventou a idéia ridÃcula de que Deus “aperfeiçoou” os manuscritos originais através do idioma inglês e da King James Bible, inclusive, segundo ele, trazendo à luz uma compreensão exegética dos manuscritos que os antigos não tinham. Essa idéia afronta diretamente a Preservação das Escrituras (pois se é óbvio que aquilo que é subtraÃdo ou modificado, como querem os crÃticos apóstatas, não pode ser chamado de “preservado,” assim aquilo que é aperfeiçoado não pode ser chamado de “preservado”). Ruckman e sua idéia não merecem uma consideração séria.
Publicado no site Cantinho do Primo Rodrigo



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