O DISCIPULADO DE ACORDO COM O EXEMPLO E ENSINO DE JESUS REGISTRADOS NO EVANGELHO SEGUNDO MATEUS - Parte II

1.2.3 Ensinando aos novos discípulos.

A terceira maneira, o terceiro modo de fazer discípulos é ensinando. O ensino no evangelho de Mateus é central. Hörster, por exemplo, afirma que este evangelho "formava a base para a instrução sobre as palavras e a vida de Jesus Cristo" (HORSTER, 1996, p. 31).

A afirmação feita por Jesus nesta ordenança, orienta os discípulos para ensinar a outros discípulos a "guardar todas as coisas que vos tenho ensinado". A pergunta que se deve fazer é: qual é o conteúdo deste ensino? Alguma luz é lançada a partir da reflexão de Bosch. Este estudioso comenta que:

O evangelho de Mateus possui cinco grandes sermões ou discursos (formando, de acordo com alguns estudiosos, o pentateuco de Mateus). Eles são os sermões sobre: 1) discipulado (5-7); 2) a missão apostólica (10); 3) como o Reino de Deus vem (13); 4) a disciplina na Igreja (18); e 5) falsos mestres e o fim (23-25). A frase: ‘ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado’ retorna, primariamente, ao primeiro destes discursos, o sermão da montanha" (BOSCH, 1996, p. 69).

A convicção de Bosch é que quando Jesus ordena a ministração do ensino, Ele está referindo-se ao Sermão do Monte. Todavia, conforme acentua Trihing, esta posição limita por demais o conteúdo dos ensinos de Cristo. Mais uma vez este autor faz um paralelo com o Antigo Testamento para se compreender melhor a intenção teológica do evangelho, bem como o significado da expressão "todas as coisas". Ele afirma:

Panta hósa afeta não só a lei moral, posto que a lei veterotestamentária se via também, desta forma, como uma magnitude complexa de ordem popular-social, cúltica e ética, cuja unidade apoiava-se na vontade suprema e na essência santa de Deus...Certamente toda a vida do povo da aliança é conformada por esta vontade. O mesmo pensamento se insinua com respeito a Mt 28.20. Ali, se manifesta a vontade do Kyrios frente ao povo de Deus. Mas, isto não se pode limitar a um "moral commends", "às exigências morais anunciadas por Jesus" ou vê-lo só como caracterização da obra de Jesus "no sentido da nova lei do sermão da montanha" (TRIHING, 1974, p. 53-54).

O "todas as coisas", como exposto acima, não pode ser resumido, limitado por ensinamentos isolados no evangelho. A dimensão dos ensinos de Jesus não se restringe a um código de ética ou moral, ainda que estes sejam importantes para a vida humana. Quando se fragmentam os ensinamentos de Cristo, dando ao sermão do Monte uma superioridade e, até mesmo, uma suficiência teológica e espiritual em detrimento aos demais ensinamentos, o discipulado em Cristo fica defasado, incompleto e defeituoso. O novo discípulo precisa saber "todas as coisas" que Jesus ensinou aos seus antigos discípulos. E, aos primeiros discípulos, o ensinamento foi mais amplo do que o sermão do Monte.

Todo o ensinamento de Cristo deve ser transmitido aos discípulos recém ingressados no Reino. Os cinco discursos apresentados no evangelho de Mateus formam o escopo de um material de discipulado que o autor quer desenvolver com os novos discípulos da comunidade (HÖRSTER, 1996, p. 34).

Hoje, com a disposição e o conteúdo dos escritos inspirados da Bíblia, não apenas o evangelho de Mateus, com todos os ensinamentos, com todos os discursos ou sermões, mas também as demais mensagens, ênfases e temas dos outros três evangelhos necessitam ser comunicados aos novos discípulos da Igreja de Cristo. A vontade de Deus é para ser aprendida no todo das mensagens de Cristo e não em partes ou fragmentos dela.

Na frase, uma palavra se sobressai; e esta é: guardar. No grego encontra-se o verbo terein, que é um infinitivo ativo (FRIBERG, 1987, p. 105) . O sentido do verbo, conforme é assinalado pelo Léxico do Novo Testamento, dos autores Gingrich e Danker é o de cumprir (1984, p. 206). Discípulo é aquele que cumpre os preceitos, orientações e mandamentos de Cristo Jesus. Em nossa frase, este cumprimento diz respeito à totalidade dos ensinamentos de Cristo.

Em outras partes do evangelho, a prática, o cumprimento dos preceitos e ordenanças de Cristo são assinalados (Mt 7.21-23; 24-27; Mt 19.17). Não basta apenas chamar Jesus de Senhor, é preciso "fazer a vontade do Pai" (7.21). Somente ouvir não é suficiente para os discípulos, é necessário praticar os preceitos e mandamentos aprendidos de Cristo (7.24-27). Faz a vontade de Deus aquele que ouve e obedece a mensagem ouvida (Mt 21.28-32).

1.3 À guisa de resumo.

Conforme visto acima, o evangelho de Mateus é o que melhor pode ser usado, pesquisado e estudado dentro do tema do discipulado cristão. Desde a igreja primitiva, usava-se este evangelho como base para a instrução dos novos convertidos e a formação dos novos crentes na fé cristã. Daí, emerge a sua importância e supremacia nesta missão.

O final do evangelho constitui-se em chave interpretativa para todo o livro. E é no final deste livro, na ênfase no discipulado que todo ele é compreendido. Seu conteúdo é didático, visa instruir os novos na fé. Sua construção literária é voltada para a formação de discípulos nos moldes do discipulado dos primeiros aprendizes de Cristo.

A autoridade e a presença de Cristo entre os seus discípulos formam a base sobre a qual o discipulado será desenvolvido. Ninguém pode realizar esta obra a não ser embasado, alicerçado nestas duas realidades. Esta missão inicia-se em Cristo, desenvolve-se nele e termina com a sua presença até a consumação dos séculos.

No texto de Mateus 28.16-20, o verbo principal é fazer discípulos, os demais verbos que se encontram no particípio, denotam a maneira, o modo, pelo qual se fará o discipulado. Assim, indo, batizando e ensinando são as maneiras de se fazer novos discípulos. Está é a via para a realização da tarefa.

A Igreja moderna necessita voltar seus olhos para a estratégia de trabalho e missão deixadas por Jesus. Os modismos missiológicos e eclesiásticos são desnecessários para uma Igreja que leva a sério as orientações do seu Senhor e Mestre.

A Igreja de Cristo é chamada para esta missão: fazer discípulos. Qualquer outra tarefa que venha a dar a primazia, a superioridade e a ênfase a outros meios que não ao ato de discipular novas vidas, necessita ser reavaliada.

A Igreja precisa pensar se tem ido proclamar a mensagem de Jesus. A inércia, a inatividade e o comodismo não fazem parte da missão de Jesus. Não se pode cruzar os braços e esperar que Deus aja no vácuo, no vazio, sem usar os seus servos para a proclamação das boas novas aos oprimidos do diabo.

Inserir estes novos convertidos no contexto de uma Igreja viva e atuante no mundo, pelo conhecimento dos ensinos de Jesus, é indispensável. Não existe discipulado sem inserção. Conforme dito anteriormente, a proclamação pode ser feita a quem quiser e quantas vezes se puder, mas o discipulado só pode acontecer e começar com a inserção das pessoas na comunidade.

Além disto, o ensino assume um papel vital dentro desta estratégia de missão montada por Jesus. Só se pode considerar discípulo aquela pessoa que ouve, aprende e cumpre todas as ordenanças do Senhor Jesus. A pessoa que não é "doutrinada" nos ensinos de Jesus, bem como se ela não cumpre, não faz "a vontade do Pai que está nos céus", não pode ser considerada autêntica seguidora de Cristo.

A estratégia de Jesus é simples, porém eficaz. É nesta missão que a Igreja precisa desenvolver-se e andar. A comissão de Jesus foi, é e sempre será válida para os seus servos. Cabe à igreja de cada geração levar a sério esta grande ordenança feita por Ele.

 

"O caminho para a vida é de quem guarda o ensino"

Pv 10.17a.

Reginaldo Corrêa de Carvalho é Pastor auxiliar da Igreja Presbiteriana Jardim de Oração em Santos - São Paulo. Tem Mestrado em Educação Cristã pelo Centro de Pós-graduação "Andrew Jumper" da Igreja Presbiteriana.

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