O DISCIPULADO DE ACORDO COM O EXEMPLO E ENSINO DE JESUS REGISTRADOS NO EVANGELHO SEGUNDO MATEUS - Parte II

Reginaldo Corrêa de Carvalho

1. UMA ANÁLISE DO DISCIPULADO NO EVANGELHO DE MATEUS.

O estudo do "discipulado" no evangelho de Mateus é pertinente e propositadamente importante para a compreensão desse tema. Encontram-se razões sobejamente suficientes para se estudar o tema do discipulado neste evangelho.

Esse evangelho, criticamente falando, "foi o que mais influenciou a história da igreja cristã. No século II ele já era conhecido em todo o cristianismo. Formava a base para a instrução sobre as palavras e a vida de Jesus Cristo." (HÖRSTER, 1996, p. 31)

Em segundo lugar, ainda que não se encontre o termo "discipulado" nas Escrituras, tanto do Antigo quanto do Novo Testamentos, "o verbo matheteuein, traduzido em Mateus 28.19 por fazer discípulos, aparece quatro vezes em o Novo Testamento, sendo que três destas em Mateus (13.52; 27.57; 28.19) e uma em Atos (14.21)" (BOSCH, 1996, p. 73). Mas, é justamente em Mt 28.19 que o termo é mais enfaticamente usado e é o único lugar onde este vocábulo possui um sentido imperativo (Id., ibid., p.73).

Para se compreender melhor a importância do evangelho para este tema, Bosch afirma: "O tema do discipulado é central no evangelho de Mateus..." (1996, p.73). E mais ainda: quanto ao vocábulo mathetés (traduzido por discípulo), esta palavra aparece 261 vezes em o Novo Testamento (PINTO e METZGER, 1996, p. 87). Porém, dentre os sinópticos, o maior número de vezes onde ele aparece é justamente no evangelho de Mateus, com 73 ocorrências. Nos demais evangelhos, o número de vezes em que aparece são os seguintes: Marcos, 46 vezes; Lucas, 37 (BOSCH, 1996, p.73). Isto significa, então, no mínimo, que semanticamente (6) o evangelho de Mateus dá mais ênfase ao discipulado do que os demais evangelhos.

Um outro dado revelador são as narrativas do aparecimento do ressurreto Jesus e sua ascensão aos céus nos evangelhos. Dos quatro, apenas Mateus possui uma ordem expressa e um discurso elaborado do Senhor aos seus apóstolos para "fazer discípulos de todas as nações" e "ensiná-los a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado" (Mt 28.19, 20). Os demais não usam a expressão "fazer discípulo", ainda que se reconheça o delineamento da missão da Igreja. Marcos dá ênfase à pregação, à fé e aos sinais que acompanhariam aqueles que cressem na mensagem do evangelho (Mc 16.15-18). Em Lucas, o evangelho termina com o diálogo entre Jesus e os dois discípulos na estrada de Emaús. Neste texto, no versículo 49 do capítulo 24, Jesus ordena que os seus discípulos fiquem em Jerusalém até que sejam "do alto, revestidos de poder" e nada mais do que isto. Era, ao mesmo tempo a ordem e a promessa de Jesus. Como Atos é um continuação do primeiro escrito de Lucas (At 1.1ss), lendo o livro, não se encontra nenhuma ordem para se fazer discípulos. Porém, como mencionado acima, o verbo matheteuein quando visto em Atos 14.21, expressa o resultado do trabalho missionário de Paulo e não uma ordem deixada por Cristo neste livro. João, nas duas aparições de Jesus aos seus discípulos, nos capítulos 20 e 21, não narra nenhuma ordem de Jesus aos discípulos para o discipulado. O evangelho termina com a restauração de Pedro e o comissionamento deste para "apascentar as ovelhas" do Senhor (Jo 21.18).

Com esta análise, não se quer dizer que hajam discrepâncias ou contradições nos evangelhos, mas sim, ênfases distintas. Fica evidente que o evangelho de Mateus tem uma preocupação maior com o discipulado, um discipulado que, como será visto mais adiante, é metódico, progressivo e esquematizado.

    1. As bases do discipulado cristão em Mateus 28.16-20.

Mateus 28.16-20 forma uma única perícope. Este posicionamento diante da divisão do texto, diferentemente do encontrado na Bíblia de João de Almeida, Revista e Atualizada, tem o apoio de vários exegetas e lingüistas, entre eles citam-se: Tasker, Giusepe Barbaglio, Barbara e Timothy Friberg e David J. Bosch.

A separação dos versículos 16-17, juntamente com a leitura desatenta dos versículos 18-20, deixa escapar um dado importante dentro da teologia desenvolvida por Mateus, qual seja: que o comissionamento dos discípulos para fazer discípulos de todas as nações deu-se em um monte da Galiléia. Nas Palavras de Barbaglio:

Já o lugar é significativo: na Galiléia, sobre o monte. O alcance da indicação vai além do caráter puramente topográfico, para assumir um valor simbólico. Na Galiléia tinha ressoado a primeira palavra de anúncio do Reino (4.17). Sobre o monte, Jesus tinha ensinado uma nova doutrina de vida (5.1-2). Agora, de novo no monte, ressoa sua palavra de Senhor glorioso. Mateus insiste sobre o caráter revelador do acontecimento (BARBAGLIO, 1990, p. 417).

(6) Por "semântica" deve-se entender o significado da palavra enquanto palavra. Aqui, não se tem a intenção de trabalhar o termo dentro dos diversos campos semânticos em que a palavra aparece bem como as variações e significados que ela pode tomar nos diversos contextos em que ela for achada.

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